Renato era um jornalista. Ele estava apaixonado pelo colega de trabalho. Não poderia declarar-se ao amigo, pois esse era hétero. Na verdade, ninguém sabia de seu segredo. Aparentemente não havia nada em Renato que trouxesse alguma suspeita sobre sua opção sexual. Pensando nisso, certo dia, ele foi a um bar literalmente “afogar as mágoas”. Bebeu tanto que acabou sendo expulso do botequim. Seguiu, cambaleando, tentando encontrar algum outro boteco de braços abertos. No caminho, deparou-se com um morador de rua em sono profundo. Ao seu lado, uma garrafa. Parecia ser alguma bebida. “Melhor que pagar por uma.”- pensou Renato. Tirou a garrafa do moribundo e saiu. No caminho, tentava abrir a garrafa. Não conseguia. Sentia algum peso nela, como se houvesse algo lá dentro. E com as percepções que qualquer bêbado teria, acreditava de todo coração que só poderia ser algo alcoólico, e estava decidido a descobrir o que era. Como ficava perto, Renato não teve dificuldades para chegar em casa. Com 10 toneladas de cansaço nas costas e uma chave que insistia em pular de suas mãos, ele pacientemente abriu a porta e entrou.
Sentou um pouco. Observou a garrafa. Ainda não podia abri-lá. Reparou que uma rolha a tampava. Foi pegar um saca-rolhas na cozinha. Também não adiantou. E num momento de fúria, Renato deu um berro e jogou a garrafa com tudo no chão da sala. Naquele instante, dos cacos de vidro surgiu um ser de fumaça. Renato, espantado, perguntava-se em voz alta o que seria aquela criatura. Ele não parava de falar. Então a nuvem gritou:
– Cale-se!
Renato obedeceu a ordem.
– Qual é o seu desejo? - perguntou o ser.
– Desejo? - indagou Renato.
– Sim. Me libertas-te de minha prisão. Em troca lhe concederei um desejo.
– Hum...Isso faz de você um gênio, certo?
– Ora! É claro que sou um gênio! O que mais eu seria?
– Mas... só um desejo?
– Olha, se me libertou apenas para me fazer perguntas estúpidas, sugiro que me prenda em outra garrafa e se livre de mim.
– Está bem! Desculpe!
– Agora, novamente, qual seria o seu desejo?
Renato, acreditando que era tudo uma alucinação, resolveu obedecer ao gênio e desejar algo. Mas não fazia idéia do que desejar. Tinha o emprego que sempre sonhou. Ganhava muito bem. O que desejaria? E durante aquela reflexão, lembrou do colega de trabalho. Poderia, porém não desejou que ficassem juntos. Parecia fácil demais. E frio. Precisava de algo que o ajudasse a conquistar o coração de seu amigo, não possuí-lo de uma vez. Teve uma idéia. A qualquer momento poderia acordar daquele provável sonho, entretanto, era melhor que ouvir as ladainhas daquele gênio grosseiro. Renato olhou decidido para a fumaça e exclamou:
– Desejo ser uma mulher!
– Seu desejo é uma ordem. - respondeu o gênio.
A cena se apagou. Com um pequeno esforço, Renato abriu os olhos e se viu deitado no sofá. A cabeça doía. Ele olhou para o piso da sala. Nenhum estilhaço de vidro. “Sonho doido. Não devia ter bebido tanto.”- pensava. Se dirigiu ao banheiro. Por algum motivo as roupas pareciam mais frouxas que usualmente. Não enxergava muito bem. Lavou o rosto. Virou para o espelho e viu o reflexo de uma linda mulher. Ficou sem palavras. Foi a sala novamente se certificar de que não havia algum caco de vidro jogado. Nada. O que teria acontecido? Estaria ainda sonhando? Renato se beliscou. Jogou-se de um lado para o outro. Não resolveu. Continuava com a mesma aparência. Sobrou apenas deixar-se levar por aquela situação. Voltou para o banheiro. Tirou a roupa e deu uma boa olhada no novo físico. “Estranho. Mas nada mal.”- dizia a si mesmo. Sentia-se sujo. Tomou um banho. Enquanto tentava compreender seu novo corpo, refletia em como seguiria com sua vida a partir dali. Apesar de complicado, aquela seria a chance perfeita para conquistar o coração do amado. Estava resolvido. Iria ganhar o coração dele. Nem que fosse como Renata.
Comprou roupas novas. Arrumou outra identidade e novos documentos. Difícil se acostumar. Muitos saltos quebrados durante o percurso. Com empenho, conseguiu o emprego como aquela pessoa. Agora precisava se aproximar do homem. Conversavam pouco. E os papos que não passavam de profissionais ficaram mais íntimos. Saíam juntos. E quando surgiu a oportunidade, Renata se declarou. A reação do indivíduo não poderia ser melhor. Ele confessou que a amava também. Naquela mesma noite, foram ao apartamento dela e selaram seu amor. Ela levantou de madrugada. O amado dormia. Tinha o coração dele. Deveria estar feliz. Entretanto, havia algo errado. Não parecia ter feito o correto. Pensativa, levantou vagarosamente da cama, vestiu uma camisola e saiu. Teria de ir a um lugar. Resolver um assunto com um certo alguém. Andava tentando recordar onde aconteceu. Alguns passos dados e lá estava ele. O mesmo mendigo, com a mesma garrafa do lado. Não hesitou. Tomou-a e correu para um beco vazio. Rapidamente, lançou o recipiente na calçada. O g~enio apareceu:
– Mas você de novo?! - resmungou ele.
– Eu faria muitas perguntas neste instante, porém não pretendo tomar seu tempo. - disse ela.
– Quer outro desejo?
– Isso mesmo.
– Sendo assim, diga.
Renata respirou fundo e pediu:
– Desejo voltar ao que era!
– Não compreendo. Não alcançou o que queria? Por que você voltaria agora?
Ela se perguntava o que o gênio quis dizer com “alcançou o que queria”. Respondeu:
– Porque prefiro estar longe dele sendo eu mesmo, do que perto como outra pessoa.
– Dessa forma, mais uma vez, seu desejo é uma ordem. - falou ele.
Outro apagão. Renato acordou no beco. Estava com seu velho corpo. Voltou para casa, formulando uma explicação ao amante no caminho.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
Reflexão
Imaginava como seria dentro do espelho. Será que era diferente? Parecia o mesmo mundo. Os mesmos banheiros, quartos. Infelizmente só enxergo partes desta dimensão. E quando tento fazer contato com esta terra, sou interrompido por mim mesmo. Ele imitava cada movimento meu. Chegava a irritar. Mas não poderia ser culpa dele. Talvez ele só quisesse entrar aqui, e eu o estava atrapalhando. Tentei sair de seu caminho. Não adiantou, pois fez o mesmo. De qualquer forma, nada funcionaria. Estamos destinados a ficar-mos presos por culpa de nossos próprios atos, sem ao menos alcançar-mos o outro lado.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
O Vilão da história
Seu único intuito é vencer seu oponente. Sua aparência não surpreendente. Um tanto sem graça. Diferente de seu inimigo, não possui nenhum poder. É fraco. Teve que se virar durante toda a vida. Sem ajuda. Sozinho. Nunca desejou estar naquele estado. Fazer maldades. Tudo o que sempre quis foi ser amado. Ser admirado. Mas o herói sempre se interpôs. Ganhava todos com sua beleza, musculatura e super-poderes. Enquanto isso, o outro ficava no canto. Odiosamente observando a situação. Guardava rancor daquela criatura. Ao contrário dele, era desprezado por todos. Julgado. Não era bem vindo. Condenado por ser apenas humano.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Sentindo...
Nunca a conheci. Não sei da existência dela. Mesmo assim anseio por nosso encontro. Quero achá-la. Abraçá-la. Sair com ela mais uma vez. Lembro de observarmos as estrelas. A lua. De Passearmos fantasiados, não nos importando com o que pensassem. Compartilharmos flores. Assistirmos um anime tomando sorvete de menta. Me preocupo com ela. Imagino como terrível seria perdê-la. Prometo jamais abandoná-la. Estou a cada dia mais apaixonado por minha desconhecida amada.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Passatempo de uma garota
Não entendo as pessoas as vezes. Se gosto não se discute por que implicam com o meu? Gosto de matar pessoas. Já virou um hobby. Ainda lembro da minha primeira vez. Tinha uma garota que sempre implicava comigo. Era daquelas “amigas” que ficam em rodinhas e fofocam sobre os outros. Mas ela me deixou puta mesmo quando eu estava gostando de um garoto. Certa vez resolvi falar com ele e ela simplesmente o puxou e lascou um beijo nele. Infelizmente para ela, já sabia cada passo da garota. Como ela sempre saía durante as aulas para retocar a maquiagem, só aproveitei um desses momentos e a matei. Uma pena ser tão inexperiente naquela época. Matar por causa de um moleque foi a pior coisa que poderia ter feito. Ao menos me diverti. Consegui ficar com o garoto, mas ele apenas o fez para ver se me comia. Não devia ter falado isso para mim. O azar foi o dele, morreu depois do encontro. Devo ter sido a única aluna que levava um cutelo na escola. Havia um tipo de depósito abandonado lá. Deixei os dois corpos no lugar. Devem até ter dado conta deles. Não é mais problema meu. Foi difícil revelar esse gosto e as experiências aos meus pais. Ficaram realmente tristes. Mamãe não acreditou. Ficava repetindo que não ouviu aquilo. Que era apenas imaginação. Papai não parava de gritar comigo. Quase me batendo. Falava que uma menina como eu não deveria fazer algo desse tipo. Porém não chamou a polícia. Disse que esqueceria daquilo, desde que nunca mais fizesse algo assim. Levou minha mãe para o quarto. Sem aceitação, nem compreensão, restou-me apenas fugir de casa. Esperei os dois estarem em sono profundo. Levantei. Coloquei uma roupa, peguei a chave do carro, a machadinha, todo o dinheiro que possuía e saí. Uma sorte meu pai ter me ensinado a dirigir antes do acontecimento. Qual o problema afinal? Pelo menos não mato animais. Sempre fui vegetariana. Me acham assassina mas não fazem questão de matar para sobreviver. E os que fazem roupas com pele? Arrancam o couro dos animais enquanto eles estão vivos. Um dia irei atrás deles. Agora vivo mudando de cidade. Só eu e meu cutelo a procura de algum entretenimento.
domingo, 11 de julho de 2010
A-MAR
O capitão e O navio. Relação profunda. Não importa a época, o barco, a nacionalidade, estão sempre juntos. E nesse entrelaço homossexual eles compartilham carinhos. Enquanto um cuida da saúde, higiene e aparência do parceiro; este corresponde ao ato levando o amante a vários lugares maravilhosos, para experiências exóticas, acolhe-o. Claro que nem tudo é um mar de rosas. Existem os problemas. As dificuldades. Desentendimentos. Mesmo assim, não se separam. Unidos até que a morte os afunde.
domingo, 4 de julho de 2010
Rotina
Um dia você visita sua tia e, dentre as fotos da parede, observa a imagem de seus bisavôs. Passado isso, segue com sua vida:Estuda, se forma, trabalha, constitui família, até se encontrar estampado em um pedaço de papel, dentro de um porta retrato, sendo observado pelo bisneto na casa da tia dele.
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