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sábado, 24 de setembro de 2011
Internado - parte 4
– Jornalista? - o detetive passou a mão no queixo, pensativo - Hum... você não seria aquela jornalista desaparecida, seria?
– Eu mesma... E acho isso bem óbvio né senhor.
– O que veio fazer aqui?
– Quando os assassinatos começaram, meu chefe pediu para me aprofundar mais no assunto e ver se descobria alguma gafe. Analisei a localização das vítimas e notei que a maioria amontoava-se próxima a saída norte da cidade. Só existe uma estrada que passa por la.
– E nessa mesma estrada fica o caminho para o hospital.
– Exato. No começo eu apenas investiguei os arredores. Não encontrando nada, fitava o mapa todo marcado e reparei mais neste lugar. Foi a primeira vez que vi ele em nossos mapas. Pesquisei um pouco mais, e quanto mais procurava, mais estranho parecia. O que um hospital faria no meio do nada, próximo a uma estrada. Do jeito que era desconhecido já deveria ter ido à falência. Logo corri para ver de perto, talvez encontrar uma “primeira página”, e aqui estou eu, uma hóspede forçada de um centro médico lotado de lunáticos.
– Eu deveria ter pensado nisso...
– Se não pensou, como chegou aqui?
– Um mendigo me contou...
– Bom... Se você diz.
– Vejo que já se conheceram - falou a voz ecoada de Mohamed - Eu tenho uma tarefa para você Valéria. Por que não apresenta o funcionamento de nosso maravilhoso estabelecimento?
– Como se eu tivesse escolha... - abriu a porta do banheiro bufando - Não vem?
– Vou usar o banheiro rapidinho. - falou Antônio - Pode me esperar fora.
– Tá. - saiu.
O detetive não queria participar das brincadeiras do médico, mas enquanto ele estivesse vigiando, não havia o que fazer por enquanto. Usou um dos toaletes e apoiou-se na pia. Molhou o rosto, olhando seu reflexo no grande espelho. Viu uma chama brilhando nele. Olhou para trás. Não encontrou nada. A imagem da fogueira o hipnotizava.
– O fogo é algo tão bonito, não? - sussurrou uma voz.
– Ahn?! - Antônio virou-se assustado.
– Calma! - Valéria pulou com a reação do homem.
– O que disse?
– Eu só perguntei se tinha terminado.
– Mas eu... tenho certeza que... - coçou a cabeça, confuso - Desculpe, vamos.
sábado, 27 de agosto de 2011
Internado - parte 3
Cruzando o caminho ensanguentado, antônio alcançou o elevador. Chamou-o. O chão gelado o levava a espirrar. Resfriado? A falta da roupa íntima o deixava desconfortável. Sentia-se exposto. Num apito, as placas de metal se afastaram e ele entrou. Apertou o botão respectivo ao primeiro andar. Uma melodia agradável tocava. Ela parou. Uma música ao som de piano passou a tocar. A mesma que Júlia performou no teatro, antes de revelar sua identidade, e morrer. Da fresta da porta, um bilhete foi empurrado para dentro do elevador. Como aquilo era possível? O elevador estava em movimento. Antônio abriu o bilhete. Apenas uma palavra escrita: FOGO.
Sentiu um tranco e o elevador começou a cair. Inexplicavelmente, a coisa descontrolada não atingia o fundo. Enquanto caia, Antônio ouvia a voz de Júlia sussurrar repetidamente a palavra no papel. O elevador parou. A voz sumiu, juntamente com o bilhete. A alegre melodia voltou a preencher o local. O que foi aquilo? Uma alucinação? Um sonho? Achou serem efeitos da injeção que levou.
As portas se abriram. O investigador procurou pelo quarto 140. Não encontrou. Checou várias vezes. A numeração dos quartos ia somente até o 112. O que estaria errado? Antônio vasculhou o andar, procurando por pistas. Durante a busca, um detalhe chamou sua atenção. Incrustados na porta do banheiro feminino, arranhões formavam o número 140.
– Oh, vejo que encontrou o quarto. - falou a voz de Mohamed.
– Isso é um banheiro... - resmungou o investigador. - O que você injetou em mim?
– Primeiro, não fui eu quem injetou, sim a enfermeira Laura. É um medicamento especial que eu mesmo criei. Costumo dá-lo a todos os meus pacientes.
– Medicamento? Tá mais para alucinógeno.
– Ah, detetive. Deixe de desculpas. Entregue-se aos seus sentimentos. O remédio nada mais é do que um meio de ampliar o que já existe em você. Agora entre.
– E o que eu deveria encontrar aí dentro?
– Logo irá descobrir.
O inesperado diálogo com o doutor tirou sua dúvida em relação a existência das câmeras escondidas no prédio. Em passos cautelosos, Antônio invadiu o banheiro. Paredes encardidas. Torneiras disparando água. Um dos boxes estava aberto. O homem se aproximou lentamente. Viu apenas um vaso desprovido de sua tampa, coberto com pedaços de papel higiênico. De repente, ele foi atacado pelas costas. Uma mulher o chacoalhou gritando. Ela tentava perfurá-lo com um pedaço de vidro. Gritando por calma, o homem a empurrou, segurando-a contra a pia.
– O que vocês querem dessa vez? - perguntou ela, fatigada.
– “Vocês”?
– Estou farta disso tudo! Por que não me matam de uma vez? - a moça de pele escura e cabelo liso encolheu-se no canto.
– Olha, não sei o que fizeram com você, mas acredite, não estou com eles.
– E daí? - a mulher levantou-se rapidamente na direção do homem - Como vou saber se não é mais um daqueles pacientes malucos?
– Eu até mostraria meu distintivo, se não estivesse quase nu aqui. E afinal, eu tenho cara de louco?
– Não...não tem.
– Estou tão fodido quanto você nesse lugar.
– Ai, que porra... Tá bem, tá bem. Desculpe.
– Vamos recomeçar. Meu nome é Antônio. Sou detetive.
– Valéria. Jornalista.
Sentiu um tranco e o elevador começou a cair. Inexplicavelmente, a coisa descontrolada não atingia o fundo. Enquanto caia, Antônio ouvia a voz de Júlia sussurrar repetidamente a palavra no papel. O elevador parou. A voz sumiu, juntamente com o bilhete. A alegre melodia voltou a preencher o local. O que foi aquilo? Uma alucinação? Um sonho? Achou serem efeitos da injeção que levou.
As portas se abriram. O investigador procurou pelo quarto 140. Não encontrou. Checou várias vezes. A numeração dos quartos ia somente até o 112. O que estaria errado? Antônio vasculhou o andar, procurando por pistas. Durante a busca, um detalhe chamou sua atenção. Incrustados na porta do banheiro feminino, arranhões formavam o número 140.
– Oh, vejo que encontrou o quarto. - falou a voz de Mohamed.
– Isso é um banheiro... - resmungou o investigador. - O que você injetou em mim?
– Primeiro, não fui eu quem injetou, sim a enfermeira Laura. É um medicamento especial que eu mesmo criei. Costumo dá-lo a todos os meus pacientes.
– Medicamento? Tá mais para alucinógeno.
– Ah, detetive. Deixe de desculpas. Entregue-se aos seus sentimentos. O remédio nada mais é do que um meio de ampliar o que já existe em você. Agora entre.
– E o que eu deveria encontrar aí dentro?
– Logo irá descobrir.
O inesperado diálogo com o doutor tirou sua dúvida em relação a existência das câmeras escondidas no prédio. Em passos cautelosos, Antônio invadiu o banheiro. Paredes encardidas. Torneiras disparando água. Um dos boxes estava aberto. O homem se aproximou lentamente. Viu apenas um vaso desprovido de sua tampa, coberto com pedaços de papel higiênico. De repente, ele foi atacado pelas costas. Uma mulher o chacoalhou gritando. Ela tentava perfurá-lo com um pedaço de vidro. Gritando por calma, o homem a empurrou, segurando-a contra a pia.
– O que vocês querem dessa vez? - perguntou ela, fatigada.
– “Vocês”?
– Estou farta disso tudo! Por que não me matam de uma vez? - a moça de pele escura e cabelo liso encolheu-se no canto.
– Olha, não sei o que fizeram com você, mas acredite, não estou com eles.
– E daí? - a mulher levantou-se rapidamente na direção do homem - Como vou saber se não é mais um daqueles pacientes malucos?
– Eu até mostraria meu distintivo, se não estivesse quase nu aqui. E afinal, eu tenho cara de louco?
– Não...não tem.
– Estou tão fodido quanto você nesse lugar.
– Ai, que porra... Tá bem, tá bem. Desculpe.
– Vamos recomeçar. Meu nome é Antônio. Sou detetive.
– Valéria. Jornalista.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Internado - parte 2
Atado numa cadeira, Antônio acordou num quarto minúsculo. A cama ao lado, completamente suja, enojava o detetive. O piso estava umedecido, congelando seus pés descalços. Um cheiro forte o desorientava. Um ruído o atordoou por um momento e uma voz começou a falar.
– Antônio Marcos de Oliveira. Detetive do departamento de polícia da nossa capital. Bem vindo. Eu sou o Dr. Mohamed Nunes, diretor deste maravilhoso estabelecimento particular. Quem diria, hein? Você deve ser muito bom para descobrir a origem dos restos.
– Restos? - tonto, o investigador se esforçava para responder.]
– Os corpos que encontrou, detetive. O parabenizo pela sua astucia. Ou sorte. Infelizmente, seria uma lastima se nos impedisse. Ainda assim, por curiosidade, estudei o seu passado. Descobri que há três anos atrás participou da investigação de um piromaníaco, que custou a morte de sua namoradinha. Após isso, você entrou em depressão.
– Como sabe disso tudo?
– Isso não importa. O que interessa agora é que você está ruim, e como médico, é meu dever tratá-lo. Começando agora mesmo. E durante o tratamento gostaria de fazer alguns testes. Enfermeira Laura, por favor, dirija-se ao quarto 318.
Antônio notou usar não a sua roupa costumeira, mas um avental hospitalar. Uma loira, com cicatrizes nos braços e pernas, entrou na cela.
– Olá. Eu sou a Laura. - disse ela, abrindo um grande e alegre sorrizo - Eu mesma troquei sua roupa, sabia? Você até que é gostosinho.
A mulher subiu no colo do homem, encostando um bisturi no peito dele. Ela então encravou a lâmina em sua própria coxa e abriu uma ferida.
– Ah! Isso! - a enfermeira urrava de dor e prazer. Passou a mão no fluido vermelho que escorria, esfregando-o na boca de Antônio - Beba. É tão bom. Vamos fazer juntos. Sim!
– Enfermeira, pare de brincadeiras e trabalhe! - advertiu a voz do doutor.
– Aah... - decepcionada, inseriu uma seringa num frasco e sugou seu conteúdo - Hora do remédio, seu menino levado.
– O que está me dando? - perguntou ele, enquanto levava a injeção.
– Apenas algo para abrir sua mente.
A visão do policial ficou embaçada. Sentiu a mulher o soltando da cadeira. A voz ecoada de Mohamed o alcançou:
– Não se preocupe, sua visão voltará em alguns segundos. Vá para o quarto 140. Use o elevador. Não tente fugir, as portas estão trancadas, e estarei vigiando pelas câmeras do prédio. Se quiser bater um papo, espalhei escutas por todo o terreno. Estarei ao seu dispor.
Recuperando sua visão, Antônio iniciou sua jornada ao elevador. Algumas macas enferrujadas atrapalhavam seu caminho. Checou as portas, e realmente estavam trancadas. Nos corredores, viu várias linguas pregadas numa das paredes encardidas. Exalavam um odor terrível da decomposição, com moscas saltitando de uma em uma. Acima da carne podre, um aviso escrito em sangue:
“SILÊNCIO DENTRO DO HOSPITAL”
– Antônio Marcos de Oliveira. Detetive do departamento de polícia da nossa capital. Bem vindo. Eu sou o Dr. Mohamed Nunes, diretor deste maravilhoso estabelecimento particular. Quem diria, hein? Você deve ser muito bom para descobrir a origem dos restos.
– Restos? - tonto, o investigador se esforçava para responder.]
– Os corpos que encontrou, detetive. O parabenizo pela sua astucia. Ou sorte. Infelizmente, seria uma lastima se nos impedisse. Ainda assim, por curiosidade, estudei o seu passado. Descobri que há três anos atrás participou da investigação de um piromaníaco, que custou a morte de sua namoradinha. Após isso, você entrou em depressão.
– Como sabe disso tudo?
– Isso não importa. O que interessa agora é que você está ruim, e como médico, é meu dever tratá-lo. Começando agora mesmo. E durante o tratamento gostaria de fazer alguns testes. Enfermeira Laura, por favor, dirija-se ao quarto 318.
Antônio notou usar não a sua roupa costumeira, mas um avental hospitalar. Uma loira, com cicatrizes nos braços e pernas, entrou na cela.
– Olá. Eu sou a Laura. - disse ela, abrindo um grande e alegre sorrizo - Eu mesma troquei sua roupa, sabia? Você até que é gostosinho.
A mulher subiu no colo do homem, encostando um bisturi no peito dele. Ela então encravou a lâmina em sua própria coxa e abriu uma ferida.
– Ah! Isso! - a enfermeira urrava de dor e prazer. Passou a mão no fluido vermelho que escorria, esfregando-o na boca de Antônio - Beba. É tão bom. Vamos fazer juntos. Sim!
– Enfermeira, pare de brincadeiras e trabalhe! - advertiu a voz do doutor.
– Aah... - decepcionada, inseriu uma seringa num frasco e sugou seu conteúdo - Hora do remédio, seu menino levado.
– O que está me dando? - perguntou ele, enquanto levava a injeção.
– Apenas algo para abrir sua mente.
A visão do policial ficou embaçada. Sentiu a mulher o soltando da cadeira. A voz ecoada de Mohamed o alcançou:
– Não se preocupe, sua visão voltará em alguns segundos. Vá para o quarto 140. Use o elevador. Não tente fugir, as portas estão trancadas, e estarei vigiando pelas câmeras do prédio. Se quiser bater um papo, espalhei escutas por todo o terreno. Estarei ao seu dispor.
Recuperando sua visão, Antônio iniciou sua jornada ao elevador. Algumas macas enferrujadas atrapalhavam seu caminho. Checou as portas, e realmente estavam trancadas. Nos corredores, viu várias linguas pregadas numa das paredes encardidas. Exalavam um odor terrível da decomposição, com moscas saltitando de uma em uma. Acima da carne podre, um aviso escrito em sangue:
“SILÊNCIO DENTRO DO HOSPITAL”
sábado, 16 de julho de 2011
Internado - parte 1
Sugiro para não se perderem http://felipeintruso.blogspot.com/2011/01/incendio-parte-1.html
Ruas imersas na escuridão. As lâmpadas dos postes piscavam freneticamente. Aquele teatro. Parecia familiar. Dos corredores, via uma luz provindo dos interiores, acompanhada de uma melodia. Passando silenciosamente pelas poltronas, alcançou o palco. Os corpos de um senhor e um garoto, pendurados nas cortinas, se contorciam com os olhos virados. Uma mulher de cabelos curtos tocava um piano flamejante. Sentiu ter ouvido aquela música antes. A pianista parou, virando-se. Levantou e aproximopu-se do expectador.
– Você veio. - a mulher o abraçou emocionada - Eu te amo tanto.
De repente, a face da moça tornou-se em carne viva, acordando o homem do pesadelo. Antônio, de bruços na escrivaninha de seu escritório, coçou os olhos e enxugou o suor da testa. Tentando manter-se acordado, analisava documentos de vítimas recentes. Procurou o remédio nas gavetas. Nada. Aqueles pesadelos. Terapias, medicamentos e ainda assim as visões continuavam. Doutor Pedro e seu filho, Roberto, cremados. Júlia suicidando-se com um tiro. O fogo. Cenas que se repetiam na mente do detetive. Pioravam a cada dia. Alguém entrou.
– Como vai a investigação, Antônio? - perguntou o chefe de polícia.
– Todas as vítimas foram encontradas com orgãos faltando, mostrando que o assassino é possivelmente o mesmo. Porém, a área de ação dele é muito extensa. Estamos empacados.
– Entendo. - o velho notou a feição triste do amigo - Olha, por que você não vai para casa descansar?
– Preciso não. - disse foliando os arquivos.
– Não foi um pedido. Eu sei que não é fácil perder alguém. Só que já fazem três anos, Antônio. Você precisa superar isso. Deve lutar e aceitar o que aconteceu.
– Quem me dera... - fechou tudo e guardou, lembrando da verdade que ele escondia sobre a falecida amada - Estou indo. Boa Noite.
– Boa.
A chuva comprometia a visão do homem. Cansado, ele dirigia vagarosamente, olhando ao redor do veículo. O que é pior afinal? Perder a amada, ou descobrir que era uma assassina? Chegando, encontrou um mendigo na entrada do edifício.
– Senhor Antônio? - perguntou o indivíduo.
– Sim. Como sabe meu nome?
– Os corpos. Sei de onde eles vem.
– Corpos? Os sem orgãos?
– Sim. Toda noite uma van deixa-os nas ruas.
– Uma van.
– Sim.
– E por que não avisou a polícia antes?
– Não me deixaram entrar. Então te segui até descobrir onde morava.
– Sei. È isso?
– Não. Tem um nome escrito na van. Centro Hospitalar Abarão Porciano Clife.
– Um hospital? Estranho... Obrigado pela informação. Gostaria de entrar? Comer algo?
– Não. Prédios me assustam. - o sujeito saiu aos murmúrios.
Antônio pesquisou sobre o local. Ficava distante da cidade, num campo fechado. O terreno cobria vários hectares, contornado por uma vasta floresta. Era caríssimo e exclusivo, tendo pouca popularidade. No dia seguinte, o detetive se dirigiu ao centro médico. Os portões principais estavam escancarados. Interfonou, sem receber resposta. Invadiu com o carro. Atravessando diferentes jardins, alcançou a mansão. Estatuas de bestas e pessoas desnudas davam boas vindas ao investigador. Uma recepção vazia o recebeu. Papeis espalhados. Espirros de sangue pelas paredes. Estaria abandonado? Decidiu vasculhar. Ao dar o primeiro passo, sentiu um golpe e desmaiou.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
A dama da noite - capítulo final
Bárbara não sabia onde estava. Era um lugar completamente branco. Parecia infinito. O nada absoluto, ela diria.
– Por quê?
A moça virou para ver quem falava.
– Por que você se culpa tanto? - uma menina perguntava para ela.
– Eu...Quem é você?
– Sofia.
– Ah. Então é a senhorita que leva o meu corpo por aí durante o dia.
– Não foi culpa sua.
– Sei...
– Mas existe algo pelo qual você deveria se culpar.
– E o que é?
– Entristecer Bia e Cláudia.
– Como assim entristecer?
– Já reparou na preocupação que elas tem por você? No quanto se importam?
– Sim, eu...
– Sendo assim, não deveria se unir mais a elas e abraçar seu amor do que se ocultar num quarto?
– Sim... - refletiu e ficou decepcionada.
Sofia a abraçou.
– Deixe o passado de lado e aproveite quem está perto de você.
– Certo. Obrigada.
– Cuide bem da minha irmãzinha e da Clauclau. Poderia...se despedir delas por mim?
– Ahn?
Acordou na cama de um hospital.
– Irmã? - falou Bia, preocupada.
– Oi loirinha. Que aconteceu?
– Você caiu e machucou a cabeça. Nos deixou amedrontadas, sabia? - reclamava Cláudia.
– Desculpe. Eu não vou mais trazer problemas.
– Se sente bem?
– Não.
– Que foi? Sente dor?
– Eu nunca agradeci devidamente pelo que vocês fizeram por mim. Ficava tão focada na perda que esquecia. Me perdoem.
– Está perdoada! - a criança pulou na cama e abraçou forte a moça.
– Espera. São 8 da manhã. O que aconteceu com a Sofia?
– Se foi.
– Aaah, ela não volta? - indagou Bianca.
– Acho que não mana.
– Poxa. Talvez ela não tenha desaparecido. Ainda vive aí dentro. Sempre esteve em você.
– Pode ser, irmãzinha.
Para a surpreza das duas, Bárbara sorria. Nunca tiveram a oportunidade de ver aquele sorriso. E pela primeira vez, aquela garota tristonha ficou feliz. Maria deixou de ser uma tortura, e virou uma lembrança agradável. E para o bem dela, prometeu a si mesma que não iria chorar mais, e trazer felicidade à sua nova família.
– Por quê?
A moça virou para ver quem falava.
– Por que você se culpa tanto? - uma menina perguntava para ela.
– Eu...Quem é você?
– Sofia.
– Ah. Então é a senhorita que leva o meu corpo por aí durante o dia.
– Não foi culpa sua.
– Sei...
– Mas existe algo pelo qual você deveria se culpar.
– E o que é?
– Entristecer Bia e Cláudia.
– Como assim entristecer?
– Já reparou na preocupação que elas tem por você? No quanto se importam?
– Sim, eu...
– Sendo assim, não deveria se unir mais a elas e abraçar seu amor do que se ocultar num quarto?
– Sim... - refletiu e ficou decepcionada.
Sofia a abraçou.
– Deixe o passado de lado e aproveite quem está perto de você.
– Certo. Obrigada.
– Cuide bem da minha irmãzinha e da Clauclau. Poderia...se despedir delas por mim?
– Ahn?
Acordou na cama de um hospital.
– Irmã? - falou Bia, preocupada.
– Oi loirinha. Que aconteceu?
– Você caiu e machucou a cabeça. Nos deixou amedrontadas, sabia? - reclamava Cláudia.
– Desculpe. Eu não vou mais trazer problemas.
– Se sente bem?
– Não.
– Que foi? Sente dor?
– Eu nunca agradeci devidamente pelo que vocês fizeram por mim. Ficava tão focada na perda que esquecia. Me perdoem.
– Está perdoada! - a criança pulou na cama e abraçou forte a moça.
– Espera. São 8 da manhã. O que aconteceu com a Sofia?
– Se foi.
– Aaah, ela não volta? - indagou Bianca.
– Acho que não mana.
– Poxa. Talvez ela não tenha desaparecido. Ainda vive aí dentro. Sempre esteve em você.
– Pode ser, irmãzinha.
Para a surpreza das duas, Bárbara sorria. Nunca tiveram a oportunidade de ver aquele sorriso. E pela primeira vez, aquela garota tristonha ficou feliz. Maria deixou de ser uma tortura, e virou uma lembrança agradável. E para o bem dela, prometeu a si mesma que não iria chorar mais, e trazer felicidade à sua nova família.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
A dama da noite - capítulo 8
Bianca, ajoelhada, falava com uma lápide. Sofia e Cláudia observavam. A menina encostou as flores no lugar e levantou. Saíram do cemitério e voltaram para casa. Já faziam alguns meses que Bárbara vivia na mansão com as duas. Sofia continuava uma criança brincalhona, enquanto Bárbara era a mesma amargurada. Ela disfarçava bastante, mas conseguiam ouvir seus prantos durante a noite, trancada no quarto. A moça não permitia a entrada. As vezes tentavam consolá-la. Ela ficava quieta, escondida em seu mundo infeliz e sem família. Família de apenas uma pessoa para ela. Maria. Passou a ter o hábito de trancar o quarto ao sair dele. Escondia algo dentro?
– Eu quero entrar no meu quarto! - queixava-se Sofia.
– Por hora, é melhor você ficar fora. As vezes tem coisa perigosa, e por isso trancaram a porta. - explicava a mulher.
– Quem? O que existe de tão perigoso?
– Eu não sei. Esqueça e vá se distrair.
– Tá...
Foi a melhor desculpa que Cláudia conseguiu arrumar. Como explicar que na verdade ela própria trancou a porta? Porém, a mulher estava preocupada. O que Bárbara esconderia naquele cômodo? Bia tinha aula de Francês, então não podia brincar com a irmã. Sofia rondou a casa toda. O tédio prevaleceu. Teve uma idéia. Passado algum tempo, Cláudia notou o sumisso da garota. Procurando, encontrou-a no quarto. De alguma forma Sofia conseguiu arrombar a porta. As paredes, cobertas de folhas de papel com desenhos de uma pequena menina morena. Maria?
– O que aconteceu?! - falou Sofia, indignada.
– Então era isso? - Cláudia analisava a cena.
– Essa menina...
De repente a moça colocou as mãos na cabeça, gritando.
– O que foi Sofia?
– Eu...é minha culpa - andando de costas rapidamente, a garota se afastava de Cláudia, indo em direção a sacada. - Me perdoe Maria, por favor!
– Cuidado!
Desorientada, Sofia trombou nas grades e caiu do segundo andar.
– Eu quero entrar no meu quarto! - queixava-se Sofia.
– Por hora, é melhor você ficar fora. As vezes tem coisa perigosa, e por isso trancaram a porta. - explicava a mulher.
– Quem? O que existe de tão perigoso?
– Eu não sei. Esqueça e vá se distrair.
– Tá...
Foi a melhor desculpa que Cláudia conseguiu arrumar. Como explicar que na verdade ela própria trancou a porta? Porém, a mulher estava preocupada. O que Bárbara esconderia naquele cômodo? Bia tinha aula de Francês, então não podia brincar com a irmã. Sofia rondou a casa toda. O tédio prevaleceu. Teve uma idéia. Passado algum tempo, Cláudia notou o sumisso da garota. Procurando, encontrou-a no quarto. De alguma forma Sofia conseguiu arrombar a porta. As paredes, cobertas de folhas de papel com desenhos de uma pequena menina morena. Maria?
– O que aconteceu?! - falou Sofia, indignada.
– Então era isso? - Cláudia analisava a cena.
– Essa menina...
De repente a moça colocou as mãos na cabeça, gritando.
– O que foi Sofia?
– Eu...é minha culpa - andando de costas rapidamente, a garota se afastava de Cláudia, indo em direção a sacada. - Me perdoe Maria, por favor!
– Cuidado!
Desorientada, Sofia trombou nas grades e caiu do segundo andar.
sábado, 9 de abril de 2011
A dama da noite - capítulo 7
Cláudia estava contente. Encontrou Bia e Sofia deitadas na cama, abraçadas. Ou seria Bárbara dormindo junto da loira? Provavelmente as duas ficaram mais próximas na noite anterior. Despertaram e desceram para tomar o café da manhã. A mulher saiu para resolver os negócios antes pertencentes a mãe de Bianca.
– Onde está a Clauclau? - perguntou a morena.
– Ela tem uma reunião com os antigos sócios da minha mãe. - respondeu a pequena - Sofia...qual a sua primeira lembrança?
– Hum, sei não. Eu lembro de umas pessoas lambuzadas com um suco vermelho. Depois andei pela cidade, sem rumo.
– Não se lembra de mais nada?
– Não.
– Ahn... - Cláudia falou com ela sobre esse dia, quando começaram as trocas de personalidade da Bárbara. Sofia nem reconhecia as pessoas mortas naquela data, mesmo que fossem seus pais. Apesar de agora se dar bem com a moça noturna, Bia ainda percebia uma certa tristeza nos olhos dela ao conversarem. Por que ela se culpava tanto? Afinal, foi seu pai o assassino de Maria.
– Sabe o que é mais estranho? Também não lembro o que faço durante a noite. E outra, eu tenho 6 anos e sou maior que você. Sou quase da altura da Clau Clau. Como isso?
– Vai saber, né. - óbviamente Sofia não se lembraria. Ao anoitecer ela era outra garota. A verdadeira dona daquele corpo. O que isso fazia dela? Um fantasma? Uma mentira? Desconhecendo a sua inexistência, a moça conduzia sua vidinha infantil e alegre, indiferente de ser real ou não - A Cláudia vai demorar. Vou jogar vídeo game.
– Eu também!
– Você nem sabe como se joga.
– Ué, eu aprendo.
– Só quero ver.
Cláudia voltou para a mansão. Já havia anoitecido. Na escadaria, viu Bia sentada nos degraus, chateada.
– Aconteceu alguma coisa? - disse preocupada.
– Ela ganhou de mim...com o Blanka. Perdi minha honra. E pensar que eu usava o Ryu. - a menina abaixou a cabeça, decepcionada.
– Hein?!
– Da próxima vez uso o Akuma. Duvido ela me vencer novamente.
– Olha...eu vou subindo, tudo bem?
– Tá.
Antes de ir no escritório, decidiu passar no quarto de Bárbara.
– Está aí? - perguntou, batendo na porta.
– Sim. Só um minuto. - a garota apressadamente guardou algo e abriu a porta. - Em que posso ajudar?
– Apenas checando. Fazendo o quê? Ouvi um barulho e...
– Não é nada.
– Sei. Bom, se precisar, estou na minha sala.
– Certo.
Cláudia ficou curiosa sobre o que a moça escondia. Até Bianca foi impedida de entrar. A morena dizia estar ocupada. A criança então jogou vídeo game de novo, disposta a praticar e vencer Sofia. Cansada do “treino”, resolveu dormir. Na sua cama encontrou um boneco de tecido, provavelmente feito a mão e recentemente. Ao lado, um bilhete: “De Bárbara para Bia, minha querida irmãzinha”.
– Como ela fez isso tão rápido? - feliz com o presente, deitou-se e dormiu.
– Onde está a Clauclau? - perguntou a morena.
– Ela tem uma reunião com os antigos sócios da minha mãe. - respondeu a pequena - Sofia...qual a sua primeira lembrança?
– Hum, sei não. Eu lembro de umas pessoas lambuzadas com um suco vermelho. Depois andei pela cidade, sem rumo.
– Não se lembra de mais nada?
– Não.
– Ahn... - Cláudia falou com ela sobre esse dia, quando começaram as trocas de personalidade da Bárbara. Sofia nem reconhecia as pessoas mortas naquela data, mesmo que fossem seus pais. Apesar de agora se dar bem com a moça noturna, Bia ainda percebia uma certa tristeza nos olhos dela ao conversarem. Por que ela se culpava tanto? Afinal, foi seu pai o assassino de Maria.
– Sabe o que é mais estranho? Também não lembro o que faço durante a noite. E outra, eu tenho 6 anos e sou maior que você. Sou quase da altura da Clau Clau. Como isso?
– Vai saber, né. - óbviamente Sofia não se lembraria. Ao anoitecer ela era outra garota. A verdadeira dona daquele corpo. O que isso fazia dela? Um fantasma? Uma mentira? Desconhecendo a sua inexistência, a moça conduzia sua vidinha infantil e alegre, indiferente de ser real ou não - A Cláudia vai demorar. Vou jogar vídeo game.
– Eu também!
– Você nem sabe como se joga.
– Ué, eu aprendo.
– Só quero ver.
Cláudia voltou para a mansão. Já havia anoitecido. Na escadaria, viu Bia sentada nos degraus, chateada.
– Aconteceu alguma coisa? - disse preocupada.
– Ela ganhou de mim...com o Blanka. Perdi minha honra. E pensar que eu usava o Ryu. - a menina abaixou a cabeça, decepcionada.
– Hein?!
– Da próxima vez uso o Akuma. Duvido ela me vencer novamente.
– Olha...eu vou subindo, tudo bem?
– Tá.
Antes de ir no escritório, decidiu passar no quarto de Bárbara.
– Está aí? - perguntou, batendo na porta.
– Sim. Só um minuto. - a garota apressadamente guardou algo e abriu a porta. - Em que posso ajudar?
– Apenas checando. Fazendo o quê? Ouvi um barulho e...
– Não é nada.
– Sei. Bom, se precisar, estou na minha sala.
– Certo.
Cláudia ficou curiosa sobre o que a moça escondia. Até Bianca foi impedida de entrar. A morena dizia estar ocupada. A criança então jogou vídeo game de novo, disposta a praticar e vencer Sofia. Cansada do “treino”, resolveu dormir. Na sua cama encontrou um boneco de tecido, provavelmente feito a mão e recentemente. Ao lado, um bilhete: “De Bárbara para Bia, minha querida irmãzinha”.
– Como ela fez isso tão rápido? - feliz com o presente, deitou-se e dormiu.
sábado, 26 de março de 2011
A dama da noite - capítulo 6
Bianca estava em uma das salas. Apesar da TV ligada, apresentando seu programa favorito, ela olhava confusa para uma folha de papel.
– Se não vai assistir, desligue. - recomendou Cláudia.
– Ah...Oi. - disse a menina, desanimada.
– Nossa. Que aconteceu?
Bia mostrou o desenho para a mulher.
– Olha só que perfeito. Quem fez?
– Bárbara.
– Talentosa. Então ela conversou com você.
– Um pouco. De repente ela saiu e deixou o caderno. Também fiquei surpresa. Achei que foi de propósito deixá-lo. Fui procurá-la e a encontrei chorando no corredor. Ela gritou comigo, correu e se trancou no quarto.
– E não me chamou?
– Pois é. Mesmo na hora em que conversávamos ela parecia nervosa e um tanto triste.
– Bom diaaaaa! - Sofia surpreendeu as duas aparecendo com uma toalha amarrada como uma capa e um balde na cabeça, segurando uma colher de pau.
– Por que está vestida assim? - perguntou a mulher.
– Eu sou uma super-heroína. Love raaaaaaaay!
Cláudia vira para Bia, olhando-a seriamente.
– Você é uma péssima influência.
– Não posso fazer nada se ela brinca como eu.
– Claro. Ô heroína? Depois do café se arrume. Vamos sair.
– Tá. - ajeitou o capacete e se dirigiu à cozinha.
– Onde vão?
– Um psiquiatra. Levando em consideração os problemas dela, seria bom procurar por uma solução.
– Verdade.
Mais tarde, se encontraram com o doutor. Cláudia explicou a situação para ele. Conversou com Sofia e pediu que voltassem durante a noite.
– Sente-se, por favor. - dizia o homem.
– Eu tenho mesmo que participar dessa porra? - indagava Bárbara.
– Sim.
– Bom...Eu não tenho escolha mesmo. Diga velho.
– Quando você começou a apagar durante o dia?
– Eu tinha 10 anos. Bem depois de...minha irmãzinha morrer.
– Como ela morreu?
– Sabe, meus pais eram uns vadios. Meu pai bebia e agredia minha mãe. De raiva, ela batia em mim. Apesar disso, eu e Maria eramos unidas. Vivia para protegê-la.
– Maria? Esse era o nome dela?
– Sim. Um dia meu pai chegou louco em casa e matou minha mãe na surra. Então ele pegou uma faca e se aproximou da minha irmã. Tentei impedi-lo, mas ele me derrubou e esfaqueou Maria. Furei o olho dele com um garfo, tomei a faca dele e o esfaqueei. - seus olhos lacrimejavam - Ela caída, espalhando o sangue no piso. Desesperada, pegava o seu sangue e colocava nas feridas, achando que cicatrizariam e ela voltaria milagrosamente. Fiquei lá, chorando, abraçando-a até estar quase amanhecendo. Não queria ver a luz do dia. Nunca mais.
– Quantos anos ela tinha?
– 6 aninhos. Adorava brincar. Correr. Ficava feliz por qualquer motivo. O meu maior desejo é ter ela de volta. Vê-la sorrir novamente. Era meu trabalho protegê-la, e eu falhei.
– Entendo. Isso é tudo, obrigado. Pode chamar a sua amiga, por favor?
– Amiga? Certo.
Cláudia entrou na sala. O doutor começou a falar:
– O trauma da morte de sua irmã é a causa. Ela se responsabiliza bastante pelo acontecido.
– Mas por que acontece? Não entendo.
– As vezes um trauma é tão forte que mexe com a cabeça de uma pessoa. No caso dela, seu desejo pela irmã e de não presenciar o dia levou seu inconsciente a criar uma réplica da menina para prevalecer durante o dia, e só pela noite voltaria ao normal. Foi um meio que sua mente arrumou para, digamos assim, manter Maria “viva”. Ela vai se recuperar somente se a culpa desaparecer.
– Obrigada por ajudar.
Ao retornarem, Bárbara foi direto para o quarto. Cláudia falou com Bianca sobre a situação. A criança resolveu ver a garota. Bateu três vezes na porta e entrou. A moça encolhia-se sobre a cama. Em volta, diferentes desenhos de uma garotinha de cabelos negros.
– Bárbara...
– O que você quer? - ela virou suas costas para a loira.
– A Cláudia falou comigo. A Maria...
– Não fale dela! Eu... - a morena foi surpreendida ao ser abraçada por trás.
– Eu sei que te magôo por lembrar ela. Não gosto de te ver assim. Você não precisa passar por isso sozinha. Portanto, por favor, embora eu não possa substituí-la, me deixe ser sua irmã agora.
Bárbara agarrou a cabeça da menina e a acariciou.
– Obrigada. - a moça, comovida, beijou levemente a testa da criança - Deixo sim.
A menina, alegre com a reação, segurou-a e apoiou sua cabeça no peito da amiga, sorrindo. Conversaram bastante. Bia terminou por dormir nos braços da companheira, que preferiu ficar parada para não acordá-la.
– Se não vai assistir, desligue. - recomendou Cláudia.
– Ah...Oi. - disse a menina, desanimada.
– Nossa. Que aconteceu?
Bia mostrou o desenho para a mulher.
– Olha só que perfeito. Quem fez?
– Bárbara.
– Talentosa. Então ela conversou com você.
– Um pouco. De repente ela saiu e deixou o caderno. Também fiquei surpresa. Achei que foi de propósito deixá-lo. Fui procurá-la e a encontrei chorando no corredor. Ela gritou comigo, correu e se trancou no quarto.
– E não me chamou?
– Pois é. Mesmo na hora em que conversávamos ela parecia nervosa e um tanto triste.
– Bom diaaaaa! - Sofia surpreendeu as duas aparecendo com uma toalha amarrada como uma capa e um balde na cabeça, segurando uma colher de pau.
– Por que está vestida assim? - perguntou a mulher.
– Eu sou uma super-heroína. Love raaaaaaaay!
Cláudia vira para Bia, olhando-a seriamente.
– Você é uma péssima influência.
– Não posso fazer nada se ela brinca como eu.
– Claro. Ô heroína? Depois do café se arrume. Vamos sair.
– Tá. - ajeitou o capacete e se dirigiu à cozinha.
– Onde vão?
– Um psiquiatra. Levando em consideração os problemas dela, seria bom procurar por uma solução.
– Verdade.
Mais tarde, se encontraram com o doutor. Cláudia explicou a situação para ele. Conversou com Sofia e pediu que voltassem durante a noite.
– Sente-se, por favor. - dizia o homem.
– Eu tenho mesmo que participar dessa porra? - indagava Bárbara.
– Sim.
– Bom...Eu não tenho escolha mesmo. Diga velho.
– Quando você começou a apagar durante o dia?
– Eu tinha 10 anos. Bem depois de...minha irmãzinha morrer.
– Como ela morreu?
– Sabe, meus pais eram uns vadios. Meu pai bebia e agredia minha mãe. De raiva, ela batia em mim. Apesar disso, eu e Maria eramos unidas. Vivia para protegê-la.
– Maria? Esse era o nome dela?
– Sim. Um dia meu pai chegou louco em casa e matou minha mãe na surra. Então ele pegou uma faca e se aproximou da minha irmã. Tentei impedi-lo, mas ele me derrubou e esfaqueou Maria. Furei o olho dele com um garfo, tomei a faca dele e o esfaqueei. - seus olhos lacrimejavam - Ela caída, espalhando o sangue no piso. Desesperada, pegava o seu sangue e colocava nas feridas, achando que cicatrizariam e ela voltaria milagrosamente. Fiquei lá, chorando, abraçando-a até estar quase amanhecendo. Não queria ver a luz do dia. Nunca mais.
– Quantos anos ela tinha?
– 6 aninhos. Adorava brincar. Correr. Ficava feliz por qualquer motivo. O meu maior desejo é ter ela de volta. Vê-la sorrir novamente. Era meu trabalho protegê-la, e eu falhei.
– Entendo. Isso é tudo, obrigado. Pode chamar a sua amiga, por favor?
– Amiga? Certo.
Cláudia entrou na sala. O doutor começou a falar:
– O trauma da morte de sua irmã é a causa. Ela se responsabiliza bastante pelo acontecido.
– Mas por que acontece? Não entendo.
– As vezes um trauma é tão forte que mexe com a cabeça de uma pessoa. No caso dela, seu desejo pela irmã e de não presenciar o dia levou seu inconsciente a criar uma réplica da menina para prevalecer durante o dia, e só pela noite voltaria ao normal. Foi um meio que sua mente arrumou para, digamos assim, manter Maria “viva”. Ela vai se recuperar somente se a culpa desaparecer.
– Obrigada por ajudar.
Ao retornarem, Bárbara foi direto para o quarto. Cláudia falou com Bianca sobre a situação. A criança resolveu ver a garota. Bateu três vezes na porta e entrou. A moça encolhia-se sobre a cama. Em volta, diferentes desenhos de uma garotinha de cabelos negros.
– Bárbara...
– O que você quer? - ela virou suas costas para a loira.
– A Cláudia falou comigo. A Maria...
– Não fale dela! Eu... - a morena foi surpreendida ao ser abraçada por trás.
– Eu sei que te magôo por lembrar ela. Não gosto de te ver assim. Você não precisa passar por isso sozinha. Portanto, por favor, embora eu não possa substituí-la, me deixe ser sua irmã agora.
Bárbara agarrou a cabeça da menina e a acariciou.
– Obrigada. - a moça, comovida, beijou levemente a testa da criança - Deixo sim.
A menina, alegre com a reação, segurou-a e apoiou sua cabeça no peito da amiga, sorrindo. Conversaram bastante. Bia terminou por dormir nos braços da companheira, que preferiu ficar parada para não acordá-la.
quarta-feira, 16 de março de 2011
A dama da noite - capítulo 5
Bárbara estava no quarto, pensando no que fazer. Ouviu passos.
– Olá. - disse Cláudia ao se aproximar - Fazendo o que?
– Nada. - respondeu a moça - Posso saber por que estou vestindo esse pijama ridículo?
– Nós compramos umas roupas para Sofia. Ela amou esse pijama.
– Imagino.
– Vai tirar?
– Não. Ela pode ficar triste quando acordar.
– Ué? Se preocupando com ela agora? Essa é boa.
– Ah, cala a boca. Para quê veio me infernizar afinal?
– Quero falar com você.
– Sobre?
– O que aconteceu ontem?
– Sei lá. Acordei numa cozinha molhada e vi um filho da puta tentando estuprar a loira. Dei um jeito nele e trouxe ela para cá.
– Deu um jeito?
– Digamos que ele está ocupado com uma pia. Mas por que pergunta logo para mim?
– Bárbara não lembra. Nem Sofia. Restou perguntar para você.
– Entendo. - mexendo nas gavetas do guarda-roupa, pegou lápis e um caderno. Sentou e começou a desenhar. - Também tenho umas perguntas.
– Diga.
– Cadê a mãe da Bianca?
– Faleceu. Deixou tudo para mim, não sei porque. Nunca me tratava bem. Vivia me chamando de “crioula” ou “preta”.
– E não se demitiu? Eu já teria dado uma surra nessa vadia.
– Não fale assim. Eu fiquei pela Bia. Viramos grandes amigas desde que nos conhecemos.
– Ela é foda. Pena não nos falarmos tanto.
– Ela está no quarto dela. Que tal ir conversar com a menina?
– É uma boa idéia. Vem junto?
– Não. Tenho negócios para resolver.
– Certo.
Bianca assistia TV num cômodo rosa todo enfeitado.
– Opa! - saudou a morena.
– Oi. - disse a criança.
– Vendo? - sentou-se no colchão rosado.
– Desenho.
– Legal. Quer fazer algo?
– Já estou fazendo.
– Ahn. - continuou desenhando. Levantou - Vou pro meu quarto. Se precisar, me chame. Boa noite.
– Até.
Bianca notou que a garota esquecera o caderno na cama. Ao abri-lo, encontrou um perfeito desenho de si mesma deitada, assistindo televisão.
– Olá. - disse Cláudia ao se aproximar - Fazendo o que?
– Nada. - respondeu a moça - Posso saber por que estou vestindo esse pijama ridículo?
– Nós compramos umas roupas para Sofia. Ela amou esse pijama.
– Imagino.
– Vai tirar?
– Não. Ela pode ficar triste quando acordar.
– Ué? Se preocupando com ela agora? Essa é boa.
– Ah, cala a boca. Para quê veio me infernizar afinal?
– Quero falar com você.
– Sobre?
– O que aconteceu ontem?
– Sei lá. Acordei numa cozinha molhada e vi um filho da puta tentando estuprar a loira. Dei um jeito nele e trouxe ela para cá.
– Deu um jeito?
– Digamos que ele está ocupado com uma pia. Mas por que pergunta logo para mim?
– Bárbara não lembra. Nem Sofia. Restou perguntar para você.
– Entendo. - mexendo nas gavetas do guarda-roupa, pegou lápis e um caderno. Sentou e começou a desenhar. - Também tenho umas perguntas.
– Diga.
– Cadê a mãe da Bianca?
– Faleceu. Deixou tudo para mim, não sei porque. Nunca me tratava bem. Vivia me chamando de “crioula” ou “preta”.
– E não se demitiu? Eu já teria dado uma surra nessa vadia.
– Não fale assim. Eu fiquei pela Bia. Viramos grandes amigas desde que nos conhecemos.
– Ela é foda. Pena não nos falarmos tanto.
– Ela está no quarto dela. Que tal ir conversar com a menina?
– É uma boa idéia. Vem junto?
– Não. Tenho negócios para resolver.
– Certo.
Bianca assistia TV num cômodo rosa todo enfeitado.
– Opa! - saudou a morena.
– Oi. - disse a criança.
– Vendo? - sentou-se no colchão rosado.
– Desenho.
– Legal. Quer fazer algo?
– Já estou fazendo.
– Ahn. - continuou desenhando. Levantou - Vou pro meu quarto. Se precisar, me chame. Boa noite.
– Até.
Bianca notou que a garota esquecera o caderno na cama. Ao abri-lo, encontrou um perfeito desenho de si mesma deitada, assistindo televisão.
terça-feira, 8 de março de 2011
A dama da noite - capítulo 4
Apesar da confusão passada, a manhã começou calma. Bia e Sofia brincavam no jardim. Cláudia observava de dentro da mansão. Elas riam e corriam na grama, como se nada tivesse acontecido. Estranhamente, Bianca não se lembrava de fugir, ou do que sucedeu depois disso. Sofia também. Restava perguntar para Bárbara. Como aquela pessoa alegre, brincalhona e infantil poderia, ao anoitecer, virar alguém tão sério, grosseiro, que nunca sorri e está sempre de mau humor? Qual seria a personalidade verdadeira? Era possível aquele corpo possuir consciências totalmente diferentes? Pensativa, Cláudia distraiu-se e não reparou no sumiço das duas.
– Buuh! - berrou uma voz.
– Aaaaaaah, meu Deus! - a mulher levou um susto.
– Heheee. Assustei a Clauclau. - falava Sofia, rindo. Levantou a mão - Bate aqui.
Quando Cláudia foi fazer o cumprimento, a morena desviou e bateu no braço.
– Ben 10.
– Aahn?! Que brincadeira sem graça foi essa?
– A Bibi me ensinou.
– Ai...porque não estou surpresa. Falando nisso, cadê ela?
– Se arrumando.
– Para quê?
– Ela disse que vamos sair. Comprar roupas.
– Mais? Ela já tem muitas.
– São para mim.
– Agora que mencionou, você precisa mesmo.
No shopping, Sofia olhava as vitrines admirada. Gostou de tudo. Principalmente de um pijama de bolinhas. De tanta admiração, acabou se separando delas. Um garoto chamou sua atenção.
– Iaí gata? - dizia ele.
– Gata? Eu amo gatos. Eles são tão fofos. Onde ela está?
– Bem aqui, na minha frente. Tá afim de uns pegas?
– Pegas? Hum... - a morena pensou - Ah, claro. - deu uma dedada no moço - Tá com você!
Ela correu gargalhando de divertimento, apesar do engano. O menino, confuso, ignorou e foi para outro alvo. Bia e Cláudia foram chamadas para a recepção. Encontraram Sofia.
– Onde você se meteu hein mocinha? - brigou a criança.
– Estava brincando. Acabaram me pegando. Eu sempre perco nesse jogo. Não é justo. - reclamou a moça.
– Aiai. Quantos anos pensa que tem afinal?
Sofia refletiu e mostrou seis dedos.
– Sei...Vamos para casa, garotinha.
Brincaram com as vestimentas, enquanto Cláudia aguardou o despertar de Bárbara. E o dia passou.
– Buuh! - berrou uma voz.
– Aaaaaaah, meu Deus! - a mulher levou um susto.
– Heheee. Assustei a Clauclau. - falava Sofia, rindo. Levantou a mão - Bate aqui.
Quando Cláudia foi fazer o cumprimento, a morena desviou e bateu no braço.
– Ben 10.
– Aahn?! Que brincadeira sem graça foi essa?
– A Bibi me ensinou.
– Ai...porque não estou surpresa. Falando nisso, cadê ela?
– Se arrumando.
– Para quê?
– Ela disse que vamos sair. Comprar roupas.
– Mais? Ela já tem muitas.
– São para mim.
– Agora que mencionou, você precisa mesmo.
No shopping, Sofia olhava as vitrines admirada. Gostou de tudo. Principalmente de um pijama de bolinhas. De tanta admiração, acabou se separando delas. Um garoto chamou sua atenção.
– Iaí gata? - dizia ele.
– Gata? Eu amo gatos. Eles são tão fofos. Onde ela está?
– Bem aqui, na minha frente. Tá afim de uns pegas?
– Pegas? Hum... - a morena pensou - Ah, claro. - deu uma dedada no moço - Tá com você!
Ela correu gargalhando de divertimento, apesar do engano. O menino, confuso, ignorou e foi para outro alvo. Bia e Cláudia foram chamadas para a recepção. Encontraram Sofia.
– Onde você se meteu hein mocinha? - brigou a criança.
– Estava brincando. Acabaram me pegando. Eu sempre perco nesse jogo. Não é justo. - reclamou a moça.
– Aiai. Quantos anos pensa que tem afinal?
Sofia refletiu e mostrou seis dedos.
– Sei...Vamos para casa, garotinha.
Brincaram com as vestimentas, enquanto Cláudia aguardou o despertar de Bárbara. E o dia passou.
quarta-feira, 2 de março de 2011
A dama da noite - capítulo 3
Pessoas amontoadas. Nenhuma delas era a que Bianca procurava. Há um bom tempo que andava. Ficou surpresa de ninguém tê-la encontrado ainda. Fugiu desde cedo, e já era quase noite. Um homem a abordou:
– Está perdida? - disse ele.
– Não. Com licença. - Bia tentou se afastar da figura.
– Espere aí. Está ficando tarde. Não acho seguro você andar por estas ruas no momento. Por que não vem na minha casa?
– Eu não costumo falar com estranhos.
– Que é isso. Eu tenho cara de alguém suspeito?
– Não...
– Então venha.
Bia acompanhou o cidadão bem trajado até uma pequena residência. Ele abriu a porta e deu passagem a loirinha. Entrando, ela viu uma pia transbordando e alguém conhecido.
– Bárbara! - a criança abraçou forte a companheira.
– Irmã! Obaaaaa! Mas meu nome não é Sofia? - disse a garota.
– Ahn?
O homem trancou a porta e apontou uma arma para Sofia.
– Tire a roupa. Agora. - falou ele.
– O quê?! Pensei que fosse me ajudar. Tô de mau! - começou a dar tapas no bandido e a gritar.
– Cala a boca! - deu uma coronhada e apagou-a - Droga. O jeito é fazer com você mesmo.
– Não! - Bia desesperou-se.
Ele a ergueu e jogou sobre a bancada. Ela ficou sem reação. Apenas chorava com medo. Enquanto o abusador abria o zíper e despia a vítima, distraiu-se com o apitar do relógio. Eram sete horas em ponto. Sentiu um puxão e foi jogado contra a parede. Deixou a pistola escorregar para o outro lado do cômodo. Se surpreendeu com a moça na sua frente. Tentou pegar a arma. Ela o lançou na pia, afundando sua cabeça na água. Se debateu. Logo parou. Largou-o e colocou as roupas de volta em Bia, desmaiada com o susto.
– Vamos embora, irmãzinha. - Bárbara montou a garotinha nas costas e saiu.
Felizmente, ela conhecia bem a cidade. Não seria um problema chegar na mansão. Pensava no que poderia ter acontecido. Sentia ódio só de pensar. Perguntava-se de onde vinha aquela dor enorme na cabeça. Teve raiva de Sofia, porém preferiu culpar a si mesma. Se tivesse ficado na propriedade, Bia não teria passado por tal situação.
– Bianca! - Cláudia se alegrou ao ver a loira.
– Fica quieta! Não vê que ela tá dormindo porra? - falou Bárbara.
– Ai! Assim você que vai acordá-la.
Levaram a menina ao seu quarto. Colocaram ela na cama e a cobriram.
– Tem um lugar sobrando, se quiser dormir. - disse a babá.
– E perder o único momento em que fico acordada? Sem chance. - respondeu a moça.
– Eu vou. Boa noite.
– Boa noite...
Bárbara observava a lua da janela, aguardando a manhã chegar.
– Está perdida? - disse ele.
– Não. Com licença. - Bia tentou se afastar da figura.
– Espere aí. Está ficando tarde. Não acho seguro você andar por estas ruas no momento. Por que não vem na minha casa?
– Eu não costumo falar com estranhos.
– Que é isso. Eu tenho cara de alguém suspeito?
– Não...
– Então venha.
Bia acompanhou o cidadão bem trajado até uma pequena residência. Ele abriu a porta e deu passagem a loirinha. Entrando, ela viu uma pia transbordando e alguém conhecido.
– Bárbara! - a criança abraçou forte a companheira.
– Irmã! Obaaaaa! Mas meu nome não é Sofia? - disse a garota.
– Ahn?
O homem trancou a porta e apontou uma arma para Sofia.
– Tire a roupa. Agora. - falou ele.
– O quê?! Pensei que fosse me ajudar. Tô de mau! - começou a dar tapas no bandido e a gritar.
– Cala a boca! - deu uma coronhada e apagou-a - Droga. O jeito é fazer com você mesmo.
– Não! - Bia desesperou-se.
Ele a ergueu e jogou sobre a bancada. Ela ficou sem reação. Apenas chorava com medo. Enquanto o abusador abria o zíper e despia a vítima, distraiu-se com o apitar do relógio. Eram sete horas em ponto. Sentiu um puxão e foi jogado contra a parede. Deixou a pistola escorregar para o outro lado do cômodo. Se surpreendeu com a moça na sua frente. Tentou pegar a arma. Ela o lançou na pia, afundando sua cabeça na água. Se debateu. Logo parou. Largou-o e colocou as roupas de volta em Bia, desmaiada com o susto.
– Vamos embora, irmãzinha. - Bárbara montou a garotinha nas costas e saiu.
Felizmente, ela conhecia bem a cidade. Não seria um problema chegar na mansão. Pensava no que poderia ter acontecido. Sentia ódio só de pensar. Perguntava-se de onde vinha aquela dor enorme na cabeça. Teve raiva de Sofia, porém preferiu culpar a si mesma. Se tivesse ficado na propriedade, Bia não teria passado por tal situação.
– Bianca! - Cláudia se alegrou ao ver a loira.
– Fica quieta! Não vê que ela tá dormindo porra? - falou Bárbara.
– Ai! Assim você que vai acordá-la.
Levaram a menina ao seu quarto. Colocaram ela na cama e a cobriram.
– Tem um lugar sobrando, se quiser dormir. - disse a babá.
– E perder o único momento em que fico acordada? Sem chance. - respondeu a moça.
– Eu vou. Boa noite.
– Boa noite...
Bárbara observava a lua da janela, aguardando a manhã chegar.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
A dama da noite - capítulo 2
– Bárbara?! - Bia estava confusa.
– É...e que porra é essa? - a garota olhou para o vestido, estranhando. Rasgou ele todo, ficando apenas com a roupa íntima - Onde eu arrumo calça e camiseta nessa merda?
Apesar da surpresa com o nome e da grosseria daquela nova pessoa que surgiu, Cláudia se acalmou, chamou alguém e mandou buscar a vestimenta desejada.
– Está machucada? - perguntava Bárbara, arrependida.
– Não - respondeu Cláudia - Só me assustei. Obrigada por perguntar.
– Sem agradecimentos. Não mereço tanto. Eu fiquei com medo. Acordei num lugar desconhecido, com gente que nunca vi. Acabei reagindo agressivamente. Pra variar...
Bárbara arrumou-se e começou a comer a refeição inacabada de Sofia. Dessa vez, usando o garfo e a faca. As outras duas também sentaram-se.
– Como eu vim parar aqui? - perguntou a morena.
– Nós achamos você deitada na calçado e a trouxemos para dentro. O estranho é que quando chegou parecia uma criança. Ficava até me chamando de mamãe. - dizia a mulher.
– Hum...deve ter sido a outra.
– Outra?!
– Sim. Considerando que eu sempre acordo num lugar diferente, deve ter alguém controlando o corpo no meu lugar. Só sei que fico acordada de noite e apago quando amanhece.
– Nossa. Complicado hein. Eu sou Cláudia, e a loira pentelha ali é a Bianca.
– Por que parou quando me viu? - perguntou Bia.
– Você lembra minha irmã menor.
– Legaaaaaaal! E cadê ela?
– Morreu...
– Ah, desculpe. E seus pais?
– Morreram...
– Eu sinto muito.
– Não sinta.
– Esse frango está ótimo, não? - Cláudia apressou-se em mudar o tópico.
Bárbara largou os talheres. Olharam curiosas para a moça.
– Acho melhor eu ir embora. - disse ela.
– Está tarde. É uma má idéia. - falou a babá.
– Eu já agredi uma! Não quero fazer mais merda ainda.
– Não vou deixar! - a garotinha pegou na perna de Bárbara e segurou firme - Eu quero minha irmã aqui.
– Me solta! - empurrou ela, fazendo-a largar.
Bárbara correu e saiu da propriedade. Bia ficou triste, não por ser derrubada, mas com a fuga da garota. Foram dormir. De manhã, Cláudia foi acordada desesperadamente.
– Dona Cláudia! - gritava uma mulher.
– Aiai! O quê?
– A mestra Bianca...
– Que tem a Bia?
– Ela fugiu!
– É...e que porra é essa? - a garota olhou para o vestido, estranhando. Rasgou ele todo, ficando apenas com a roupa íntima - Onde eu arrumo calça e camiseta nessa merda?
Apesar da surpresa com o nome e da grosseria daquela nova pessoa que surgiu, Cláudia se acalmou, chamou alguém e mandou buscar a vestimenta desejada.
– Está machucada? - perguntava Bárbara, arrependida.
– Não - respondeu Cláudia - Só me assustei. Obrigada por perguntar.
– Sem agradecimentos. Não mereço tanto. Eu fiquei com medo. Acordei num lugar desconhecido, com gente que nunca vi. Acabei reagindo agressivamente. Pra variar...
Bárbara arrumou-se e começou a comer a refeição inacabada de Sofia. Dessa vez, usando o garfo e a faca. As outras duas também sentaram-se.
– Como eu vim parar aqui? - perguntou a morena.
– Nós achamos você deitada na calçado e a trouxemos para dentro. O estranho é que quando chegou parecia uma criança. Ficava até me chamando de mamãe. - dizia a mulher.
– Hum...deve ter sido a outra.
– Outra?!
– Sim. Considerando que eu sempre acordo num lugar diferente, deve ter alguém controlando o corpo no meu lugar. Só sei que fico acordada de noite e apago quando amanhece.
– Nossa. Complicado hein. Eu sou Cláudia, e a loira pentelha ali é a Bianca.
– Por que parou quando me viu? - perguntou Bia.
– Você lembra minha irmã menor.
– Legaaaaaaal! E cadê ela?
– Morreu...
– Ah, desculpe. E seus pais?
– Morreram...
– Eu sinto muito.
– Não sinta.
– Esse frango está ótimo, não? - Cláudia apressou-se em mudar o tópico.
Bárbara largou os talheres. Olharam curiosas para a moça.
– Acho melhor eu ir embora. - disse ela.
– Está tarde. É uma má idéia. - falou a babá.
– Eu já agredi uma! Não quero fazer mais merda ainda.
– Não vou deixar! - a garotinha pegou na perna de Bárbara e segurou firme - Eu quero minha irmã aqui.
– Me solta! - empurrou ela, fazendo-a largar.
Bárbara correu e saiu da propriedade. Bia ficou triste, não por ser derrubada, mas com a fuga da garota. Foram dormir. De manhã, Cláudia foi acordada desesperadamente.
– Dona Cláudia! - gritava uma mulher.
– Aiai! O quê?
– A mestra Bianca...
– Que tem a Bia?
– Ela fugiu!
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
A dama da noite - capítulo 1
– Vamos! Estamos quase chegando! - a criança corria, ignorando a chuva caindo.
– Volte aqui! Você vai se molhar toda! - advertia Cláudia - E por que tanta pressa Bia?
– Quero assistir o anime.
– Como? Que é isso?
– É desenho japonês, boba.
– E que diferença faz o país?
– Aah...chega de pergunta e vamos logo!
Bianca pegou na mão da babá e a puxou. Ao chegar nos muros da mansão, viram uma garota deitada na calçada. Respirava devagar, com os olhos meio abertos. Tremia, enxarcada.
– É isso! Temos que levá-la para dentro. - exclamou decidida a menina.
– Aah, não sei não Bia. - disse Cláudia.
– Eu sou uma defensora da justiça! É meu dever ajudar os aflitos...sem falar que sempre quis uma irmã mais velha. É o destino!
– Aiai. É hoje que sou demitida. Tá bom vai...
– Ebaaaaa! Você carrega.
– Quê?!
Apesar do peso, Cláudia levou-a até o hall da enorme casa. Pediu à uma das empregadas que a lavasse.
– Você é uma “defensora da justiça” bem folgada sabia? - reclamou a mulher.
– A culpa não é minha se tu é a assistente. - respondeu a “heroína”, sorrindo orgulhosa.
Quando ia retrucar, Cláudia distraiu-se com os gritos da empregada. Uma moça nua apareceu, correndo. Encolheu-se na parede, a chorar. A criança se aproximou.
– Por que está chorando? - questionou a sabida.
– Medo...frio...Onde estou? - a garota soluçava.
Bianca abraçou a cabeça dela e acariciou seus longos e lisos cabelos.
– Calma...você está na minha casa...não tem perigo algum.
– Mesmo?
– Sim irmãzinha. Está tudo bem.
– Ahn... - abraçou a menina - Você não é minha mamãe?
– Não...sou sua irmã. A sua mãe é... - olhou para Cláudia - Ela!
– Vivaaaa! - pulou na mulher sem mais nem menos.
– O que?! Me solta sua louca! Você está toda molhada! E nua! Que tipo de pervertida você é hein? - logo acabou sendo derrubada. A morena não a soltava de jeito nenhum - Alguém põe uma roupa decente nela, por favor?
Colocaram um dos vestidos da mãe de Bia. Após todas estarem prontas, o jantar foi servido. A moça pegava a comida com as mãos e metia na boca.
– Já ouviu falar em talheres? - insinuou Cláudia.
– Talheres? - a garota não entendeu.
– Essas coisas de metal do lado do prato.
– Prato?
– Aai...esquece.
– Irmã...qual o seu nome? - disse Bianca.
– Nome?
– É...como te chamam?
– De nada.
– Bem...e seus pais?
– Não sei...mas a minha mamãe é a Clauclau.
– Hum...nesse caso vou te chamar de...Sofia!
– Sofiaaaaaa! Eeeeeeeh!
– Bom...se você não tem pais...acho que pode viver com a gente né?
De repente a moça parou.
– Sofia? - estranhou Bia.
– Onde estou? - ela olhou assustada para as duas.
Cláudia levantou e chegou na garota, que a pegou e lançou contra a estante envidraçada. Cacos de vidro quebravam no piso. Ela continuou empurrando a mulher contra o móvel, enforcando-a.
– Pare! - gritou a menina.
A moça encarou a loirinha. Abaixou a cabeça e largou a babá.
– Desculpe. - disse ela, ajudando Cláudia a se levantar.
– Por que fez isso Sofia? - indagou enquanto levantava.
– Sofia? Meu nome é Bárbara!
– Volte aqui! Você vai se molhar toda! - advertia Cláudia - E por que tanta pressa Bia?
– Quero assistir o anime.
– Como? Que é isso?
– É desenho japonês, boba.
– E que diferença faz o país?
– Aah...chega de pergunta e vamos logo!
Bianca pegou na mão da babá e a puxou. Ao chegar nos muros da mansão, viram uma garota deitada na calçada. Respirava devagar, com os olhos meio abertos. Tremia, enxarcada.
– É isso! Temos que levá-la para dentro. - exclamou decidida a menina.
– Aah, não sei não Bia. - disse Cláudia.
– Eu sou uma defensora da justiça! É meu dever ajudar os aflitos...sem falar que sempre quis uma irmã mais velha. É o destino!
– Aiai. É hoje que sou demitida. Tá bom vai...
– Ebaaaaa! Você carrega.
– Quê?!
Apesar do peso, Cláudia levou-a até o hall da enorme casa. Pediu à uma das empregadas que a lavasse.
– Você é uma “defensora da justiça” bem folgada sabia? - reclamou a mulher.
– A culpa não é minha se tu é a assistente. - respondeu a “heroína”, sorrindo orgulhosa.
Quando ia retrucar, Cláudia distraiu-se com os gritos da empregada. Uma moça nua apareceu, correndo. Encolheu-se na parede, a chorar. A criança se aproximou.
– Por que está chorando? - questionou a sabida.
– Medo...frio...Onde estou? - a garota soluçava.
Bianca abraçou a cabeça dela e acariciou seus longos e lisos cabelos.
– Calma...você está na minha casa...não tem perigo algum.
– Mesmo?
– Sim irmãzinha. Está tudo bem.
– Ahn... - abraçou a menina - Você não é minha mamãe?
– Não...sou sua irmã. A sua mãe é... - olhou para Cláudia - Ela!
– Vivaaaa! - pulou na mulher sem mais nem menos.
– O que?! Me solta sua louca! Você está toda molhada! E nua! Que tipo de pervertida você é hein? - logo acabou sendo derrubada. A morena não a soltava de jeito nenhum - Alguém põe uma roupa decente nela, por favor?
Colocaram um dos vestidos da mãe de Bia. Após todas estarem prontas, o jantar foi servido. A moça pegava a comida com as mãos e metia na boca.
– Já ouviu falar em talheres? - insinuou Cláudia.
– Talheres? - a garota não entendeu.
– Essas coisas de metal do lado do prato.
– Prato?
– Aai...esquece.
– Irmã...qual o seu nome? - disse Bianca.
– Nome?
– É...como te chamam?
– De nada.
– Bem...e seus pais?
– Não sei...mas a minha mamãe é a Clauclau.
– Hum...nesse caso vou te chamar de...Sofia!
– Sofiaaaaaa! Eeeeeeeh!
– Bom...se você não tem pais...acho que pode viver com a gente né?
De repente a moça parou.
– Sofia? - estranhou Bia.
– Onde estou? - ela olhou assustada para as duas.
Cláudia levantou e chegou na garota, que a pegou e lançou contra a estante envidraçada. Cacos de vidro quebravam no piso. Ela continuou empurrando a mulher contra o móvel, enforcando-a.
– Pare! - gritou a menina.
A moça encarou a loirinha. Abaixou a cabeça e largou a babá.
– Desculpe. - disse ela, ajudando Cláudia a se levantar.
– Por que fez isso Sofia? - indagou enquanto levantava.
– Sofia? Meu nome é Bárbara!
domingo, 30 de janeiro de 2011
Uma Família
A mãe cortava os vegetais concentrada. Sua filha assistia curiosa, sentada na cadeira com as pernas penduradas. Ajeitou sua boneca na mesa para que assistisse junto dela.
– Queria saber porque ele tem que fazer aquilo logo hoje. - reclamava a mulher - Não podia deixar para o fim de semana? Michele, vá chamar seu pai. O jantar ficará pronto em breve.
Cuidadosa, a garota descia as escadas, dirigindo-se ao porão. Balançava o brinquedo, cantando alegremente. A porta estava fechada. A criança era baixa demais para alcançar a maçaneta. Nem sua amiga conseguiu resolver o problema. Ouvia-se gemidos abafados vindos do outro lado. Bateu na porta. Ela abriu.
– Oi meu anjo. - dizia o pai.
– A mamãe falou que daqui a pouco servirá o jantar. - informou a menina.
– Certo. Eu já estou terminando aqui.
Entrando, viu um homem preso numa maca, com um pano amarrado entre os dentes. O pai pegou um facão e decapitou-o. Guardou a faca e foi se lavar. A garota olhava o morto sangrando.
– Papai, porque sai suco das pessoas? - perguntava a pequena, inocente.
– Eu não sei. - disse ele - As pessoas são assim querida.
– E porque você faz isso com elas?
– Para me distrair. Me entreter.
– Então é assim que você brinca?
– Isso mesmo queridinha. - deu uma curta risada.
– Aaah! Eu queria brincar com o papai! - iniciou um choro e esperneou.
– Calma filhinha. Eu prometo que da próxima vez te trago e brincamos juntos.
– Promete? - enxugava os olhos.
– Sim. Vamos subir agora. - Colocou-a nos ombros e foi para a cozinha.
Os pratos estavam servidos. Assentaram-se e começaram a comer. A menina fatiava seu bife. Gemia baixo, fingindo serem gritos de sua vítima dentre os legumes.
– Queria saber porque ele tem que fazer aquilo logo hoje. - reclamava a mulher - Não podia deixar para o fim de semana? Michele, vá chamar seu pai. O jantar ficará pronto em breve.
Cuidadosa, a garota descia as escadas, dirigindo-se ao porão. Balançava o brinquedo, cantando alegremente. A porta estava fechada. A criança era baixa demais para alcançar a maçaneta. Nem sua amiga conseguiu resolver o problema. Ouvia-se gemidos abafados vindos do outro lado. Bateu na porta. Ela abriu.
– Oi meu anjo. - dizia o pai.
– A mamãe falou que daqui a pouco servirá o jantar. - informou a menina.
– Certo. Eu já estou terminando aqui.
Entrando, viu um homem preso numa maca, com um pano amarrado entre os dentes. O pai pegou um facão e decapitou-o. Guardou a faca e foi se lavar. A garota olhava o morto sangrando.
– Papai, porque sai suco das pessoas? - perguntava a pequena, inocente.
– Eu não sei. - disse ele - As pessoas são assim querida.
– E porque você faz isso com elas?
– Para me distrair. Me entreter.
– Então é assim que você brinca?
– Isso mesmo queridinha. - deu uma curta risada.
– Aaah! Eu queria brincar com o papai! - iniciou um choro e esperneou.
– Calma filhinha. Eu prometo que da próxima vez te trago e brincamos juntos.
– Promete? - enxugava os olhos.
– Sim. Vamos subir agora. - Colocou-a nos ombros e foi para a cozinha.
Os pratos estavam servidos. Assentaram-se e começaram a comer. A menina fatiava seu bife. Gemia baixo, fingindo serem gritos de sua vítima dentre os legumes.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Atenção
Acordei numa sala. Nela havia um jarro d’água. Não tinha portas nem janelas. Nada estava lá dentro além daquele jarro d’água. Procurei uma saída. Tentei cavar um buraco no chão, nas paredes. Não deu certo. Perambulava pensando em outra opção, ao mesmo tempo em que encarava o recipiente. Cansado do silêncio, comecei a falar com o objeto, e ainda esperava ansioso por uma resposta, mas era só um jarro d’água. O que ele poderia falar para uma pessoa tão insana. Preferiu calar-se e cuidar da própria vida. A fome corroia o meu corpo. Aos poucos bebia o conteúdo da vasilha. Logo o líquido acabou e a sede tornou-se insuportável. E o pior de tudo foi aquela coisa não dar um pio. Apenas ficava ali, parada, mostrando o outro lado através de seu corpo transparente. Insistia para que dissesse algo. Ela não estava a fim de papo. Desisti e fiquei olhando. O solo poderia me acolher. Os muros me consolar. Minha atenção dirigia-se ao jarro. O tempo passou. E de tanto observá-lo, me irei e quebrei-o. Quando percebi o que fiz, já era tarde. Estava sempre o pressionando. Exigindo algo dele. Tomando suas posses. Não havia o que exigir. Tudo o que podia era ficar parado. Não passava de um pobre e frágil jarro d’água.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
"Meu herói..."
Já fazia um tempo. No começo achou que fosse apenas impressão. Mas depois estava evidente que aquele homem realmente a estava seguindo. Parecia familiar. Lembrava de tê-lo visto no trabalho. Foi lá que tudo começou. No começo, o estranho apenas a observava. Então passou a segui-la também. Nas ruas, a mulher não tinha um momento de paz. Não importa o que fizesse, o infeliz se impregnou na cabeça dela. O que ele queria afinal? Estaria tão apaixonado a ponto de persegui-la? Não. Devia ser algum psicopata. Vigiando e analisando sua vítima até encontrar uma oportunidade e dar o bote. Certa noite, ela foi atravessar para a outra calçada. Distraída, tropeçou enquanto um carro se aproximava em alta velocidade. O veículo brecava inutilmente. E no que parecia o último momento de todos, ela sentiu alguém a puxando. Era o perseguidor. Salva por aquele homem, ela sentiu-se realmente atraída por ele. Talvez ele até sentisse o mesmo com aquela ação. Perguntou-o:
– Por que me salvou?
– Ora, muito simples - disse ele - Porque EU que vou matá-la.
Com a mão enluvada, sacou uma arma e atirou na moça. Largou a arma. Pegou um pirulito. Desembrulhou-o. Colocou na boca e saiu calmamente da rua.
– Por que me salvou?
– Ora, muito simples - disse ele - Porque EU que vou matá-la.
Com a mão enluvada, sacou uma arma e atirou na moça. Largou a arma. Pegou um pirulito. Desembrulhou-o. Colocou na boca e saiu calmamente da rua.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Fábula atual
Renato era um jornalista. Ele estava apaixonado pelo colega de trabalho. Não poderia declarar-se ao amigo, pois esse era hétero. Na verdade, ninguém sabia de seu segredo. Aparentemente não havia nada em Renato que trouxesse alguma suspeita sobre sua opção sexual. Pensando nisso, certo dia, ele foi a um bar literalmente “afogar as mágoas”. Bebeu tanto que acabou sendo expulso do botequim. Seguiu, cambaleando, tentando encontrar algum outro boteco de braços abertos. No caminho, deparou-se com um morador de rua em sono profundo. Ao seu lado, uma garrafa. Parecia ser alguma bebida. “Melhor que pagar por uma.”- pensou Renato. Tirou a garrafa do moribundo e saiu. No caminho, tentava abrir a garrafa. Não conseguia. Sentia algum peso nela, como se houvesse algo lá dentro. E com as percepções que qualquer bêbado teria, acreditava de todo coração que só poderia ser algo alcoólico, e estava decidido a descobrir o que era. Como ficava perto, Renato não teve dificuldades para chegar em casa. Com 10 toneladas de cansaço nas costas e uma chave que insistia em pular de suas mãos, ele pacientemente abriu a porta e entrou.
Sentou um pouco. Observou a garrafa. Ainda não podia abri-lá. Reparou que uma rolha a tampava. Foi pegar um saca-rolhas na cozinha. Também não adiantou. E num momento de fúria, Renato deu um berro e jogou a garrafa com tudo no chão da sala. Naquele instante, dos cacos de vidro surgiu um ser de fumaça. Renato, espantado, perguntava-se em voz alta o que seria aquela criatura. Ele não parava de falar. Então a nuvem gritou:
– Cale-se!
Renato obedeceu a ordem.
– Qual é o seu desejo? - perguntou o ser.
– Desejo? - indagou Renato.
– Sim. Me libertas-te de minha prisão. Em troca lhe concederei um desejo.
– Hum...Isso faz de você um gênio, certo?
– Ora! É claro que sou um gênio! O que mais eu seria?
– Mas... só um desejo?
– Olha, se me libertou apenas para me fazer perguntas estúpidas, sugiro que me prenda em outra garrafa e se livre de mim.
– Está bem! Desculpe!
– Agora, novamente, qual seria o seu desejo?
Renato, acreditando que era tudo uma alucinação, resolveu obedecer ao gênio e desejar algo. Mas não fazia idéia do que desejar. Tinha o emprego que sempre sonhou. Ganhava muito bem. O que desejaria? E durante aquela reflexão, lembrou do colega de trabalho. Poderia, porém não desejou que ficassem juntos. Parecia fácil demais. E frio. Precisava de algo que o ajudasse a conquistar o coração de seu amigo, não possuí-lo de uma vez. Teve uma idéia. A qualquer momento poderia acordar daquele provável sonho, entretanto, era melhor que ouvir as ladainhas daquele gênio grosseiro. Renato olhou decidido para a fumaça e exclamou:
– Desejo ser uma mulher!
– Seu desejo é uma ordem. - respondeu o gênio.
A cena se apagou. Com um pequeno esforço, Renato abriu os olhos e se viu deitado no sofá. A cabeça doía. Ele olhou para o piso da sala. Nenhum estilhaço de vidro. “Sonho doido. Não devia ter bebido tanto.”- pensava. Se dirigiu ao banheiro. Por algum motivo as roupas pareciam mais frouxas que usualmente. Não enxergava muito bem. Lavou o rosto. Virou para o espelho e viu o reflexo de uma linda mulher. Ficou sem palavras. Foi a sala novamente se certificar de que não havia algum caco de vidro jogado. Nada. O que teria acontecido? Estaria ainda sonhando? Renato se beliscou. Jogou-se de um lado para o outro. Não resolveu. Continuava com a mesma aparência. Sobrou apenas deixar-se levar por aquela situação. Voltou para o banheiro. Tirou a roupa e deu uma boa olhada no novo físico. “Estranho. Mas nada mal.”- dizia a si mesmo. Sentia-se sujo. Tomou um banho. Enquanto tentava compreender seu novo corpo, refletia em como seguiria com sua vida a partir dali. Apesar de complicado, aquela seria a chance perfeita para conquistar o coração do amado. Estava resolvido. Iria ganhar o coração dele. Nem que fosse como Renata.
Comprou roupas novas. Arrumou outra identidade e novos documentos. Difícil se acostumar. Muitos saltos quebrados durante o percurso. Com empenho, conseguiu o emprego como aquela pessoa. Agora precisava se aproximar do homem. Conversavam pouco. E os papos que não passavam de profissionais ficaram mais íntimos. Saíam juntos. E quando surgiu a oportunidade, Renata se declarou. A reação do indivíduo não poderia ser melhor. Ele confessou que a amava também. Naquela mesma noite, foram ao apartamento dela e selaram seu amor. Ela levantou de madrugada. O amado dormia. Tinha o coração dele. Deveria estar feliz. Entretanto, havia algo errado. Não parecia ter feito o correto. Pensativa, levantou vagarosamente da cama, vestiu uma camisola e saiu. Teria de ir a um lugar. Resolver um assunto com um certo alguém. Andava tentando recordar onde aconteceu. Alguns passos dados e lá estava ele. O mesmo mendigo, com a mesma garrafa do lado. Não hesitou. Tomou-a e correu para um beco vazio. Rapidamente, lançou o recipiente na calçada. O g~enio apareceu:
– Mas você de novo?! - resmungou ele.
– Eu faria muitas perguntas neste instante, porém não pretendo tomar seu tempo. - disse ela.
– Quer outro desejo?
– Isso mesmo.
– Sendo assim, diga.
Renata respirou fundo e pediu:
– Desejo voltar ao que era!
– Não compreendo. Não alcançou o que queria? Por que você voltaria agora?
Ela se perguntava o que o gênio quis dizer com “alcançou o que queria”. Respondeu:
– Porque prefiro estar longe dele sendo eu mesmo, do que perto como outra pessoa.
– Dessa forma, mais uma vez, seu desejo é uma ordem. - falou ele.
Outro apagão. Renato acordou no beco. Estava com seu velho corpo. Voltou para casa, formulando uma explicação ao amante no caminho.
Sentou um pouco. Observou a garrafa. Ainda não podia abri-lá. Reparou que uma rolha a tampava. Foi pegar um saca-rolhas na cozinha. Também não adiantou. E num momento de fúria, Renato deu um berro e jogou a garrafa com tudo no chão da sala. Naquele instante, dos cacos de vidro surgiu um ser de fumaça. Renato, espantado, perguntava-se em voz alta o que seria aquela criatura. Ele não parava de falar. Então a nuvem gritou:
– Cale-se!
Renato obedeceu a ordem.
– Qual é o seu desejo? - perguntou o ser.
– Desejo? - indagou Renato.
– Sim. Me libertas-te de minha prisão. Em troca lhe concederei um desejo.
– Hum...Isso faz de você um gênio, certo?
– Ora! É claro que sou um gênio! O que mais eu seria?
– Mas... só um desejo?
– Olha, se me libertou apenas para me fazer perguntas estúpidas, sugiro que me prenda em outra garrafa e se livre de mim.
– Está bem! Desculpe!
– Agora, novamente, qual seria o seu desejo?
Renato, acreditando que era tudo uma alucinação, resolveu obedecer ao gênio e desejar algo. Mas não fazia idéia do que desejar. Tinha o emprego que sempre sonhou. Ganhava muito bem. O que desejaria? E durante aquela reflexão, lembrou do colega de trabalho. Poderia, porém não desejou que ficassem juntos. Parecia fácil demais. E frio. Precisava de algo que o ajudasse a conquistar o coração de seu amigo, não possuí-lo de uma vez. Teve uma idéia. A qualquer momento poderia acordar daquele provável sonho, entretanto, era melhor que ouvir as ladainhas daquele gênio grosseiro. Renato olhou decidido para a fumaça e exclamou:
– Desejo ser uma mulher!
– Seu desejo é uma ordem. - respondeu o gênio.
A cena se apagou. Com um pequeno esforço, Renato abriu os olhos e se viu deitado no sofá. A cabeça doía. Ele olhou para o piso da sala. Nenhum estilhaço de vidro. “Sonho doido. Não devia ter bebido tanto.”- pensava. Se dirigiu ao banheiro. Por algum motivo as roupas pareciam mais frouxas que usualmente. Não enxergava muito bem. Lavou o rosto. Virou para o espelho e viu o reflexo de uma linda mulher. Ficou sem palavras. Foi a sala novamente se certificar de que não havia algum caco de vidro jogado. Nada. O que teria acontecido? Estaria ainda sonhando? Renato se beliscou. Jogou-se de um lado para o outro. Não resolveu. Continuava com a mesma aparência. Sobrou apenas deixar-se levar por aquela situação. Voltou para o banheiro. Tirou a roupa e deu uma boa olhada no novo físico. “Estranho. Mas nada mal.”- dizia a si mesmo. Sentia-se sujo. Tomou um banho. Enquanto tentava compreender seu novo corpo, refletia em como seguiria com sua vida a partir dali. Apesar de complicado, aquela seria a chance perfeita para conquistar o coração do amado. Estava resolvido. Iria ganhar o coração dele. Nem que fosse como Renata.
Comprou roupas novas. Arrumou outra identidade e novos documentos. Difícil se acostumar. Muitos saltos quebrados durante o percurso. Com empenho, conseguiu o emprego como aquela pessoa. Agora precisava se aproximar do homem. Conversavam pouco. E os papos que não passavam de profissionais ficaram mais íntimos. Saíam juntos. E quando surgiu a oportunidade, Renata se declarou. A reação do indivíduo não poderia ser melhor. Ele confessou que a amava também. Naquela mesma noite, foram ao apartamento dela e selaram seu amor. Ela levantou de madrugada. O amado dormia. Tinha o coração dele. Deveria estar feliz. Entretanto, havia algo errado. Não parecia ter feito o correto. Pensativa, levantou vagarosamente da cama, vestiu uma camisola e saiu. Teria de ir a um lugar. Resolver um assunto com um certo alguém. Andava tentando recordar onde aconteceu. Alguns passos dados e lá estava ele. O mesmo mendigo, com a mesma garrafa do lado. Não hesitou. Tomou-a e correu para um beco vazio. Rapidamente, lançou o recipiente na calçada. O g~enio apareceu:
– Mas você de novo?! - resmungou ele.
– Eu faria muitas perguntas neste instante, porém não pretendo tomar seu tempo. - disse ela.
– Quer outro desejo?
– Isso mesmo.
– Sendo assim, diga.
Renata respirou fundo e pediu:
– Desejo voltar ao que era!
– Não compreendo. Não alcançou o que queria? Por que você voltaria agora?
Ela se perguntava o que o gênio quis dizer com “alcançou o que queria”. Respondeu:
– Porque prefiro estar longe dele sendo eu mesmo, do que perto como outra pessoa.
– Dessa forma, mais uma vez, seu desejo é uma ordem. - falou ele.
Outro apagão. Renato acordou no beco. Estava com seu velho corpo. Voltou para casa, formulando uma explicação ao amante no caminho.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Reflexão
Imaginava como seria dentro do espelho. Será que era diferente? Parecia o mesmo mundo. Os mesmos banheiros, quartos. Infelizmente só enxergo partes desta dimensão. E quando tento fazer contato com esta terra, sou interrompido por mim mesmo. Ele imitava cada movimento meu. Chegava a irritar. Mas não poderia ser culpa dele. Talvez ele só quisesse entrar aqui, e eu o estava atrapalhando. Tentei sair de seu caminho. Não adiantou, pois fez o mesmo. De qualquer forma, nada funcionaria. Estamos destinados a ficar-mos presos por culpa de nossos próprios atos, sem ao menos alcançar-mos o outro lado.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Passatempo de uma garota
Não entendo as pessoas as vezes. Se gosto não se discute por que implicam com o meu? Gosto de matar pessoas. Já virou um hobby. Ainda lembro da minha primeira vez. Tinha uma garota que sempre implicava comigo. Era daquelas “amigas” que ficam em rodinhas e fofocam sobre os outros. Mas ela me deixou puta mesmo quando eu estava gostando de um garoto. Certa vez resolvi falar com ele e ela simplesmente o puxou e lascou um beijo nele. Infelizmente para ela, já sabia cada passo da garota. Como ela sempre saía durante as aulas para retocar a maquiagem, só aproveitei um desses momentos e a matei. Uma pena ser tão inexperiente naquela época. Matar por causa de um moleque foi a pior coisa que poderia ter feito. Ao menos me diverti. Consegui ficar com o garoto, mas ele apenas o fez para ver se me comia. Não devia ter falado isso para mim. O azar foi o dele, morreu depois do encontro. Devo ter sido a única aluna que levava um cutelo na escola. Havia um tipo de depósito abandonado lá. Deixei os dois corpos no lugar. Devem até ter dado conta deles. Não é mais problema meu. Foi difícil revelar esse gosto e as experiências aos meus pais. Ficaram realmente tristes. Mamãe não acreditou. Ficava repetindo que não ouviu aquilo. Que era apenas imaginação. Papai não parava de gritar comigo. Quase me batendo. Falava que uma menina como eu não deveria fazer algo desse tipo. Porém não chamou a polícia. Disse que esqueceria daquilo, desde que nunca mais fizesse algo assim. Levou minha mãe para o quarto. Sem aceitação, nem compreensão, restou-me apenas fugir de casa. Esperei os dois estarem em sono profundo. Levantei. Coloquei uma roupa, peguei a chave do carro, a machadinha, todo o dinheiro que possuía e saí. Uma sorte meu pai ter me ensinado a dirigir antes do acontecimento. Qual o problema afinal? Pelo menos não mato animais. Sempre fui vegetariana. Me acham assassina mas não fazem questão de matar para sobreviver. E os que fazem roupas com pele? Arrancam o couro dos animais enquanto eles estão vivos. Um dia irei atrás deles. Agora vivo mudando de cidade. Só eu e meu cutelo a procura de algum entretenimento.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
ma-so-quis-mo
sm 1. Dar valor a quem não sabe da existência do mesmo nem compartilha de tal ato. 2. Apaixonar-se por quem não conhece ou ama o respectivo indivíduo. 3. Não se dar o devido valor. 4. Não possuir confiança em si mesmo. 5. Deixar-se levar pelo que outras pessoas pensem. 6. Odiar-se.
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