As chamas cobriam a casa. Antônio não conseguia contatar Júlia. Os bombeiros atiravam água com suas mangueiras. Após apagarem o fogo, o investigador entrou. Não encontrou o médico lá dentro. Estaria no hospital? Decidiu procurá-lo. Chegando no local, perguntou pelo doutor. Disseram não tê-lo visto desde manhã. O detetive ficou preocupado. Sabia que o incêndio não foi acidental. Entretanto, nenhum dos vizinhos viu alguém estranho entrando ou saindo da residência. Na delegacia, falaram que o Dr. Pedro não apareceu para o reconhecimento do corpo. “Isso é mau.” pensava ele.
Incomodava-se também com a parceira. Ela não atendia o celular, nem o telefone residencial. Foi até o apartamento dela. Tocou a campainha. Duas. Três vezes. Sentiu cheiro de algo queimando. Arriscou girar a maçaneta. A porta estava aberta. O odor vinha do banheiro. Dentro do box, um cadáver em chamas. Antônio apressou-se em ligar o chuveiro. Brevemente, o líquido esfriou o defunto. Notou um bilhete sobre a pia. Nele, um endereço, acompanhado de um recado: “ Venha, ou ela ficará como seu amigo aí”.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Incêndio - parte 2
Antônio acordou e notou que a namorada não se encontrava na cama. Júlia estava na sala, tomando leite e assistindo desenho. Disse “Bom dia!” e sentou no sofá.
– Tive um sonho ótimo! - falou a moça, entusiasmada.
– Sobre o que? - perguntou o dorminhoco.
– Fogo.
– E isso é um sonho “ótimo”?!
– Eu fiquei excitada. Você sabe que eu adoro fogo. Não existe algo mais lindo.
– Você e sua obsessão por fogo. - ele observou a bagunça do quarto - Se isso te excita tanto, vou acender uma fogueira da próxima vez que transarmos.
– Besta... - Júlia terminava sua bebida - Ligaram dando notícias sobre o corpo. Foi identificado. É mesmo o tal do Roberto.
– Entendo. É hora de darmos mais uma visita ao Dr. Pedro.
A primeira vez em que os investigadores visitaram o médico foi em razão do sequestro do menino. A situação agora era outra.
– Vocês de novo?! - reclamava o doutor, com os olhos lacrimejando.
– Vejo que recebeu a notícia. - dizia Júlia.
– Recebi. E daqui a pouco o verei, portanto, sejam rápidos.
– Certo - concordou Antônio - Conhece alguém com motivos para matar seu filho? Alguma pessoa que não gostasse dele, ou do senhor?
– Não. Dificilmente conversava com ele. Ficava no hospital o tempo todo. Acabei deixando-o de lado. E agora... se foi.
Pedro começou a chorar na frente deles.
– Nós o deixaremos em paz. - a detetive tentava consolá-lo - Sentimos muito por sua perda.
Enquanto saía, um pensamento passou pela mente de Antônio.
– Vocês estudaram naquela escola, não estudaram?
– Estudamos. - contava Júlia - Na mesma turma por várias vezes. Porém, não éramos tão próximos.
– Consegue lembrar de alguém daquela época que fosse contra o atual doutor?
– Desculpe, não.
– Isso dificulta as coisas. Vamos para a delegacia e...
– Vá você. - interrompeu ela - Voltarei para casa. Tenho uns assuntos a serem resolvidos. Mais tarde eu apareço por lá.
– Tudo bem. Nos vemos depois.
O detetive se despediu e seguiu seu rumo. A investigação não andava bem. Nenhuma digital ou vestígio do assassino foram encontradas na cena do crime ou no bilhete que ele deixou. Sem falar na falta de suspeitos. Não havia um. Enquanto trabalhava, um policial se aproximou.
– Detetive, acabamos de receber um chamado...
– Do que se trata?
– Um incêndio.
– E eu tenho cara de bombeiro?
– Não, senhor. Mas acontece que é na residência do doutor Pedro.
– Tive um sonho ótimo! - falou a moça, entusiasmada.
– Sobre o que? - perguntou o dorminhoco.
– Fogo.
– E isso é um sonho “ótimo”?!
– Eu fiquei excitada. Você sabe que eu adoro fogo. Não existe algo mais lindo.
– Você e sua obsessão por fogo. - ele observou a bagunça do quarto - Se isso te excita tanto, vou acender uma fogueira da próxima vez que transarmos.
– Besta... - Júlia terminava sua bebida - Ligaram dando notícias sobre o corpo. Foi identificado. É mesmo o tal do Roberto.
– Entendo. É hora de darmos mais uma visita ao Dr. Pedro.
A primeira vez em que os investigadores visitaram o médico foi em razão do sequestro do menino. A situação agora era outra.
– Vocês de novo?! - reclamava o doutor, com os olhos lacrimejando.
– Vejo que recebeu a notícia. - dizia Júlia.
– Recebi. E daqui a pouco o verei, portanto, sejam rápidos.
– Certo - concordou Antônio - Conhece alguém com motivos para matar seu filho? Alguma pessoa que não gostasse dele, ou do senhor?
– Não. Dificilmente conversava com ele. Ficava no hospital o tempo todo. Acabei deixando-o de lado. E agora... se foi.
Pedro começou a chorar na frente deles.
– Nós o deixaremos em paz. - a detetive tentava consolá-lo - Sentimos muito por sua perda.
Enquanto saía, um pensamento passou pela mente de Antônio.
– Vocês estudaram naquela escola, não estudaram?
– Estudamos. - contava Júlia - Na mesma turma por várias vezes. Porém, não éramos tão próximos.
– Consegue lembrar de alguém daquela época que fosse contra o atual doutor?
– Desculpe, não.
– Isso dificulta as coisas. Vamos para a delegacia e...
– Vá você. - interrompeu ela - Voltarei para casa. Tenho uns assuntos a serem resolvidos. Mais tarde eu apareço por lá.
– Tudo bem. Nos vemos depois.
O detetive se despediu e seguiu seu rumo. A investigação não andava bem. Nenhuma digital ou vestígio do assassino foram encontradas na cena do crime ou no bilhete que ele deixou. Sem falar na falta de suspeitos. Não havia um. Enquanto trabalhava, um policial se aproximou.
– Detetive, acabamos de receber um chamado...
– Do que se trata?
– Um incêndio.
– E eu tenho cara de bombeiro?
– Não, senhor. Mas acontece que é na residência do doutor Pedro.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Incêndio - parte 1
Pessoas passavam curiosas, querendo saber o que havia acontecido. Os policiais as afastavam do local. Na escola entrava um homem. Ia em direção a uma mulher. Estava próximo de beijá-la.
– Não durante o trabalho. - disse Júlia, censurando os lábios dele com os dedos.
– Aah... - Antônio deu um suspiro e sussurou um “ok” no ouvido dela.
Um policial aproximou-se dos dois.
– É por aqui. - disse ele.
Os detetives, guiados pelo oficial, se dirigiram à cena do crime. No meio do pátio tinha um cadáver completamente queimado. Parecia ser de um adolescente. Ao lado do morto, um papel. “Fiquem de olho” dizia ele, com letras de forma verdes.
– Quem será esse coitado? - perguntava-se Júlia.
– Eu tenho um palpite - sugeria Antônio - Lembra daquele garoto que foi sequestrado faz alguns dias?
– Sei... Roberto, não era?
– Fiquei sabendo que ele estudava nesta escola.
– Então é possível que seja ele. Mas antes devemos esperar examinarem o corpo. Só assim teremos certeza.
– “Fiquem de olho”. Eu tenho a impressão de que haverá mais vítimas.
– Nesse caso, é melhor seguirmos o conselho dele - a detetive segurou o braço do parceiro - Na sua casa ou na minha?
– Você é quem sabe.
– Faremos na sua.
– Só se formos agora!
– Não durante o trabalho. - disse Júlia, censurando os lábios dele com os dedos.
– Aah... - Antônio deu um suspiro e sussurou um “ok” no ouvido dela.
Um policial aproximou-se dos dois.
– É por aqui. - disse ele.
Os detetives, guiados pelo oficial, se dirigiram à cena do crime. No meio do pátio tinha um cadáver completamente queimado. Parecia ser de um adolescente. Ao lado do morto, um papel. “Fiquem de olho” dizia ele, com letras de forma verdes.
– Quem será esse coitado? - perguntava-se Júlia.
– Eu tenho um palpite - sugeria Antônio - Lembra daquele garoto que foi sequestrado faz alguns dias?
– Sei... Roberto, não era?
– Fiquei sabendo que ele estudava nesta escola.
– Então é possível que seja ele. Mas antes devemos esperar examinarem o corpo. Só assim teremos certeza.
– “Fiquem de olho”. Eu tenho a impressão de que haverá mais vítimas.
– Nesse caso, é melhor seguirmos o conselho dele - a detetive segurou o braço do parceiro - Na sua casa ou na minha?
– Você é quem sabe.
– Faremos na sua.
– Só se formos agora!
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
À Beira
Do topo do prédio, olhava para baixo. Fechou os olhos e se jogou. Aguardava o impacto fatal. Estava demorando. Resolveu ver o que acontecia. Teria se enroscado? Não. Encontrava-se parado em pleno ar. Enxergava minúsculas pessoas e carros no solo. Porém nenhum deles se movia.
– Bem alto, não? - dizia uma mulher em um vestido florido e cheio de babados, enquanto bebia seu chá sentada em uma cadeira.
O homem ficou calado. Tentava entender de onde aquela moça veio. Ela era magra, de pele escura, cabelos crespos e castanhos. Com seus olhos verdes, observava o suicida, aguardando alguma reação dele.
– Seguinte. Se vai ficar quieto aí me olhando, vou deixar que continue sua queda. - disse ela, impaciente.
– Quem é você? - perguntou ele então.
– Eu sou Cátia, prazer.
Ficaram em silêncio por um momento.
– E meu nome, não vai perguntar? - indagou ele.
– Não me interessa, vai morrer mesmo. - respondeu ela, indiferente.
– Se não te interessa, por que apareceu?
– Eu teria que te buscar de qualquer jeito. Quis me antecipar.
– Me buscar? - refletiu um pouco e encontrou uma razão para esse “buscar” de que ela falava. Assustado, questionou - Você é... a morte?
– Sim. – disse Cátia, depois de dar uma golada na bebida – Mas não gosto desse apelido. Prefiro que me chamem pelo nome.
– Não entendo. Se você é a morte e veio me levar, não deveria ter aparecido depois de eu cair?
– Eu estava aqui por perto. E esse trabalho é tão tediosos as vezes. Pensei em quebrar a rotina um pouco. - Olhou dentro da xícara - Aah, já acabou?! Vou buscar mais, já volto.
No mesmo instante, o homem voltou a sentir a gravidade lhe puxando. Em segundos, chocou-se com o chão. Agora era uma alma, de pé, observando um cadáver no asfalto.
– Quer um gole do meu chá? - ofereceu Cátia, aproximando-se.
– Não. Prefiro café.
– Bem alto, não? - dizia uma mulher em um vestido florido e cheio de babados, enquanto bebia seu chá sentada em uma cadeira.
O homem ficou calado. Tentava entender de onde aquela moça veio. Ela era magra, de pele escura, cabelos crespos e castanhos. Com seus olhos verdes, observava o suicida, aguardando alguma reação dele.
– Seguinte. Se vai ficar quieto aí me olhando, vou deixar que continue sua queda. - disse ela, impaciente.
– Quem é você? - perguntou ele então.
– Eu sou Cátia, prazer.
Ficaram em silêncio por um momento.
– E meu nome, não vai perguntar? - indagou ele.
– Não me interessa, vai morrer mesmo. - respondeu ela, indiferente.
– Se não te interessa, por que apareceu?
– Eu teria que te buscar de qualquer jeito. Quis me antecipar.
– Me buscar? - refletiu um pouco e encontrou uma razão para esse “buscar” de que ela falava. Assustado, questionou - Você é... a morte?
– Sim. – disse Cátia, depois de dar uma golada na bebida – Mas não gosto desse apelido. Prefiro que me chamem pelo nome.
– Não entendo. Se você é a morte e veio me levar, não deveria ter aparecido depois de eu cair?
– Eu estava aqui por perto. E esse trabalho é tão tediosos as vezes. Pensei em quebrar a rotina um pouco. - Olhou dentro da xícara - Aah, já acabou?! Vou buscar mais, já volto.
No mesmo instante, o homem voltou a sentir a gravidade lhe puxando. Em segundos, chocou-se com o chão. Agora era uma alma, de pé, observando um cadáver no asfalto.
– Quer um gole do meu chá? - ofereceu Cátia, aproximando-se.
– Não. Prefiro café.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Nascimento
Os demônios queriam criar um novo ser. Algo tão inteligente como eles. Após várias tentativas, por razões desconhecidas, ele surgiu. Em aparência, era diferente. Mas apresentava sentimentos, capacidade de aprender e se adaptar. As análises feitas também mostraram que a nova criatura era fêmea. Curiosos, usaram seu sangue e tentaram fazer um macho. Num novo ritual, conseguiram. Os alquimistas estavam admirados com a descoberta. Chamaram a nova espécie de “humana”. Em uma questão de tempo, ensinaram todo o seu saber as crias. Conviveram anos juntos. E a nova espécie procriou. Então, um dia, se revoltaram. Sentiam-se controlados. Usados. Fizeram uma rebelião. Muitos demônios morreram. Os poucos que restaram esconderam-se no subterrâneo, com medo, enquanto observaram sua criação desenvolver-se e fazer suas próprias descobertas em um mundo ainda desconhecido.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Intangível
Quanto tempo faz que estou aqui? Nem lembro mais. Não sei de onde vim. Como surgi. Ou aprendi o que sei hoje. Minha primeira lembrança é de estar em frente a uma lápide. Usava um uniforme escolar. Havia algo escrito nela. Um nome. Janice. Não conseguia tocar nada. Mesmo o chão era intocável. Apenas planava sobre a grama escura do cemitério. Confusa, vasculhei o local e encontrei uma senhora. Tentei falar com ela. Não escutava. Cutucá-la. Atravessei. Procurei por mais pessoas. Inútil. A situação se repetiu com todos. Magoada, vaguei pelos prédios, pensando no por quê daquilo. Vi uma garota usando o mesmo uniforme. Decidi segui-lá. Encontrei a escola. Fui com a garota até a sala de aula. Não prestei atenção na matéria. Tinha um garoto muito triste. Quando acabou, saí junto dele. Foi para uma barraca comprar flores. Depois, para minha surpresa, ao cemitério. Justamente no túmulo em que me encontrava. Ele as deixou encostadas na lápide. Quem foi aquela Janice? Algum parente? Talvez fosse uma namorada. Passei a andar ao lado do menino. Visitou ela várias vezes. Mas logo parou. O garoto se tornou um homem. Casou-se. Senti pena da Janice. Ele parecia amá-la tanto. Cansei do cara e viajei sozinha de novo. Conheci o país. O mundo. Ainda assim, sempre gostei mais de ficar naquele cemitério. Me sentia em casa. Vivi tanto tempo. E tem coisas que nunca pude fazer. Queria sentir o vento. Comer. Dormir. Tocar. Queria ter conhecido a Janice. Como será que ela era?
sábado, 4 de dezembro de 2010
Mudança de "vida"
E assim foi ela...
Acordar morto de sono. Me arrumar. Pular o café da manhã, pois não era a fome que me matava no momento. Ir para a escola com os olhos meio abertos. Dizer olá para os amigos, tão mortos quanto eu. Morrer de tédio ao ouvir um professor falando, e de rir com as piadas internas durante as conversas na sala. Ver outro entrar morrendo de raiva da aula anterior e querendo matar os alunos que atrapalharam sua aula. No intervalo, matar a fome, que demorou a aparecer. A sede as vezes morria junto. Depois era passar as últimas aulas morrendo de vontade de sair logo de lá. Me despedia dos colegas, voltava para casa, ficava por um tempo e partia para algum curso. Chegar de noite em casa. Encontrar a mãe morta por saber que o marido só chegaria tarde da noite. Esperar com ela, que morria de preocupação. Até entrar ele, mais uma vez morto de tanto trabalhar. Ela o seguia, e já que eu não precisava mais estar lá, ia dormir, aguardando por mais um dia de mortes.
Foi bom enquanto durou. Agora devo morrer por outros motivos.
Acordar morto de sono. Me arrumar. Pular o café da manhã, pois não era a fome que me matava no momento. Ir para a escola com os olhos meio abertos. Dizer olá para os amigos, tão mortos quanto eu. Morrer de tédio ao ouvir um professor falando, e de rir com as piadas internas durante as conversas na sala. Ver outro entrar morrendo de raiva da aula anterior e querendo matar os alunos que atrapalharam sua aula. No intervalo, matar a fome, que demorou a aparecer. A sede as vezes morria junto. Depois era passar as últimas aulas morrendo de vontade de sair logo de lá. Me despedia dos colegas, voltava para casa, ficava por um tempo e partia para algum curso. Chegar de noite em casa. Encontrar a mãe morta por saber que o marido só chegaria tarde da noite. Esperar com ela, que morria de preocupação. Até entrar ele, mais uma vez morto de tanto trabalhar. Ela o seguia, e já que eu não precisava mais estar lá, ia dormir, aguardando por mais um dia de mortes.
Foi bom enquanto durou. Agora devo morrer por outros motivos.
Assinar:
Postagens (Atom)