segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

À Beira

Do topo do prédio, olhava para baixo. Fechou os olhos e se jogou. Aguardava o impacto fatal. Estava demorando. Resolveu ver o que acontecia. Teria se enroscado? Não. Encontrava-se parado em pleno ar. Enxergava minúsculas pessoas e carros no solo. Porém nenhum deles se movia.

– Bem alto, não? - dizia uma mulher em um vestido florido e cheio de babados, enquanto bebia seu chá sentada em uma cadeira.

O homem ficou calado. Tentava entender de onde aquela moça veio. Ela era magra, de pele escura, cabelos crespos e castanhos. Com seus olhos verdes, observava o suicida, aguardando alguma reação dele.

– Seguinte. Se vai ficar quieto aí me olhando, vou deixar que continue sua queda. - disse ela, impaciente.

– Quem é você? - perguntou ele então.

– Eu sou Cátia, prazer.

Ficaram em silêncio por um momento.

– E meu nome, não vai perguntar? - indagou ele.

– Não me interessa, vai morrer mesmo. - respondeu ela, indiferente.

– Se não te interessa, por que apareceu?

– Eu teria que te buscar de qualquer jeito. Quis me antecipar.

– Me buscar? - refletiu um pouco e encontrou uma razão para esse “buscar” de que ela falava. Assustado, questionou - Você é... a morte?

– Sim. – disse Cátia, depois de dar uma golada na bebida – Mas não gosto desse apelido. Prefiro que me chamem pelo nome.

– Não entendo. Se você é a morte e veio me levar, não deveria ter aparecido depois de eu cair?

– Eu estava aqui por perto. E esse trabalho é tão tediosos as vezes. Pensei em quebrar a rotina um pouco. - Olhou dentro da xícara - Aah, já acabou?! Vou buscar mais, já volto.

No mesmo instante, o homem voltou a sentir a gravidade lhe puxando. Em segundos, chocou-se com o chão. Agora era uma alma, de pé, observando um cadáver no asfalto.

– Quer um gole do meu chá? - ofereceu Cátia, aproximando-se.

– Não. Prefiro café.

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