domingo, 16 de janeiro de 2011

Incêndio - parte final

– Como assim, estou falando com ele? - Antônio ainda não compreendia a situação.

– É exatamente o que ouviu. - afirmava Júlia - Eu matei os dois.

– Não pode ser. Sem chance! Por que você os mataria?

– Eu tenho os meus motivos.

– Que motivos? - o detetive aumentava seu tom de voz.

– Vingança. - a assassina pegou a partitura no piano e levantou do assento. - Como já sabe, Pedro e eu estudamos juntos naquela escola por um bom tempo. Durante esses anos, ele me fez de um objeto de divertimento. Toda hora me ridicularizando na frente dos colegas e professores. Não tive um só amigo naquela época por causa dele. Odiava ele, mas nunca tive coragem de atacá-lo. O garoto me infernizou até o final dos meus estudos. Saindo da escola, me senti aliviada. Pensei que não o veria novamente, e que ele não alcançaria nada na vida com seu jeito grosseiro.

– Até descobrir que ele se tornou um médico.

Exato. Não poderia perdoá-lo por me torturar e tornar-se um doutor tão renomado. Porém, não bastaria queimá-lo e ir embora. Precisava causar uma dor enorme nele. Matar seu filho era a melhor maneira de fazê-lo sofrer. Resolvi entrar para a polícia. Me transformar numa investigadora. Ninguém suspeitaria de mim se fizesse parte da investigação do crime que eu mesma cometi. Só não contava com uma coisa.

– O que?

– Me apaixonar por você.

– Por que está me contando tudo isso? - lágrimas escorriam no rosto de Antônio.

– Por que eu te amo. E por mais que tentasse, não aguentava esconder isso de você. Sabia que me procuraria se eu sumisse. Então deixei o corpo e o bilhete no meu apartamento, para te atrair e contar toda a verdade.

– Eu não acredito! Como pôde? E quer que eu aceite numa boa, é?

– Bem que eu gostaria. Contudo, conhecendo seu apego pela justiça, provavelmente não. - Júlia também passou a chorar. Largou a partitura e sacou um revólver. Apontou para a própria cabeça.

– O que vai fazer? Não faça isso Júlia!

– Eu sempre sonhei em morrer incendiada. Vejo que não será mais possível. - engatilhou a arma.

– Pare!

– Amo você. - e atirou.

– Eu...também. - Antônio caiu de joelhos, amargurado.

Os policiais passaram no apartamento da detetive e acharam o bilhete. Seguiram o endereço marcado e chegaram no teatro. Não encontraram os investigadores lá dentro. Antônio se retirou antes de aparecerem. Levou a amada para a casa dele. Nos fundos, colocou-a sobre uma mesa. Pegou uma garrafa e derramou seu conteúdo na mulher. Acendeu um fósforo e o jogou nela. Chorando, observou o fogo consumi-la.

– Como você sempre sonhou.

3 comentários:

  1. Enfim, o que a mente da pessoa não guarda? ainda mais por anos, logo depois de descobrirem q se amavam, já era tarde....

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