sábado, 4 de dezembro de 2010

Mudança de "vida"

E assim foi ela...

Acordar morto de sono. Me arrumar. Pular o café da manhã, pois não era a fome que me matava no momento. Ir para a escola com os olhos meio abertos. Dizer olá para os amigos, tão mortos quanto eu. Morrer de tédio ao ouvir um professor falando, e de rir com as piadas internas durante as conversas na sala. Ver outro entrar morrendo de raiva da aula anterior e querendo matar os alunos que atrapalharam sua aula. No intervalo, matar a fome, que demorou a aparecer. A sede as vezes morria junto. Depois era passar as últimas aulas morrendo de vontade de sair logo de lá. Me despedia dos colegas, voltava para casa, ficava por um tempo e partia para algum curso. Chegar de noite em casa. Encontrar a mãe morta por saber que o marido só chegaria tarde da noite. Esperar com ela, que morria de preocupação. Até entrar ele, mais uma vez morto de tanto trabalhar. Ela o seguia, e já que eu não precisava mais estar lá, ia dormir, aguardando por mais um dia de mortes.

Foi bom enquanto durou. Agora devo morrer por outros motivos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Atenção

Acordei numa sala. Nela havia um jarro d’água. Não tinha portas nem janelas. Nada estava lá dentro além daquele jarro d’água. Procurei uma saída. Tentei cavar um buraco no chão, nas paredes. Não deu certo. Perambulava pensando em outra opção, ao mesmo tempo em que encarava o recipiente. Cansado do silêncio, comecei a falar com o objeto, e ainda esperava ansioso por uma resposta, mas era só um jarro d’água. O que ele poderia falar para uma pessoa tão insana. Preferiu calar-se e cuidar da própria vida. A fome corroia o meu corpo. Aos poucos bebia o conteúdo da vasilha. Logo o líquido acabou e a sede tornou-se insuportável. E o pior de tudo foi aquela coisa não dar um pio. Apenas ficava ali, parada, mostrando o outro lado através de seu corpo transparente. Insistia para que dissesse algo. Ela não estava a fim de papo. Desisti e fiquei olhando. O solo poderia me acolher. Os muros me consolar. Minha atenção dirigia-se ao jarro. O tempo passou. E de tanto observá-lo, me irei e quebrei-o. Quando percebi o que fiz, já era tarde. Estava sempre o pressionando. Exigindo algo dele. Tomando suas posses. Não havia o que exigir. Tudo o que podia era ficar parado. Não passava de um pobre e frágil jarro d’água.

domingo, 17 de outubro de 2010

Início

Havia duas irmãs: Morte e Vida. Realmente se amavam. Adoravam conversar. Era a única coisa que faziam.

– Estou farta de papear! - reclamou Vida por um momento.

– E ... o que sugere? - perguntou Morte, assustada com a reação dela.

– Eu vou lá saber!

Morte agachou-se no vazio pensativa. Vida andava em ziguezague impacientemente. Quando resolveu irritar a irmã, notou que ela segurava algo. Uma esfera.

– O que é essa coisa? Como fez isso? Serve para que? - Vida não parava de indagar com curiosidade.

– Eu não sei! - respondeu Morte, irritada - Eu só imaginei e apareceu.

– Parece tão sem graça.

– Deixe suas críticas para depois. Verei o que posso fazer com isso.

– Desculpe. Vou ficar assistindo quietinha. - Vida ria inocentemente.

– Assim espero.

Morte pensou mais e logo o globo se cobriu de um líquido azul.

– Terminou agora? - dizia Vida, ansiosa.

– Quando estiver pronto, avisarei. Você não ia ficar em silêncio?

Opa! É verdade...

Morte continuou. Criou extensões de terras em vária partes do objeto. Encheu-o de inúmeras formas de vida. Estava terminado. Vida tomou-o das mãos da irmã.

– Cuidado! - advertiu Morte.

– Fique calma. Só quero brincar um pouco com ele.

Deixou-a se divertir e foi descansar. Passado algum tempo, ela foi checar como os dois estavam. A criação estava diferente. Agora era repleta de construções de concreto. Uma única espécie dominou quase que o objeto inteiro. Notou que faltava uma boa parte dos demais seres que criou. Também percebeu que todos amavam profundamente sua irmã, enquanto ela era detestada. Ninguém a desejava por perto.

– Quer brincar agora? - oferecia Vida.

– Não ... pode ficar com ele.
Morte virou-se e caminhou de cabeça baixa para o outro lado do universo. Vida continuou observando o brinquedo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"Meu herói..."

Já fazia um tempo. No começo achou que fosse apenas impressão. Mas depois estava evidente que aquele homem realmente a estava seguindo. Parecia familiar. Lembrava de tê-lo visto no trabalho. Foi lá que tudo começou. No começo, o estranho apenas a observava. Então passou a segui-la também. Nas ruas, a mulher não tinha um momento de paz. Não importa o que fizesse, o infeliz se impregnou na cabeça dela. O que ele queria afinal? Estaria tão apaixonado a ponto de persegui-la? Não. Devia ser algum psicopata. Vigiando e analisando sua vítima até encontrar uma oportunidade e dar o bote. Certa noite, ela foi atravessar para a outra calçada. Distraída, tropeçou enquanto um carro se aproximava em alta velocidade. O veículo brecava inutilmente. E no que parecia o último momento de todos, ela sentiu alguém a puxando. Era o perseguidor. Salva por aquele homem, ela sentiu-se realmente atraída por ele. Talvez ele até sentisse o mesmo com aquela ação. Perguntou-o:

– Por que me salvou?

– Ora, muito simples - disse ele - Porque EU que vou matá-la.

Com a mão enluvada, sacou uma arma e atirou na moça. Largou a arma. Pegou um pirulito. Desembrulhou-o. Colocou na boca e saiu calmamente da rua.

domingo, 12 de setembro de 2010

Remorso

Uma abelha rainha havia se apaixonado por um zangão. Eles se uniram e reinaram toda a colmeia. Viveram muito tempo juntos, até que a rainha descobriu que o zangão estava traindo-a com outra. Ela ficou arrasada. Apesar de já ter percebido a descoberta, o traidor agia normalmente. A rainha sofreu por um longo período. Continuava vivendo com o zangão, como se nada tivesse acontecido. Ao menos era o que parecia. Ela seduziu-o e o matou em seus aposentos. Achou que resolveria. Que aquela dor iria embora. Mas não foi. Ainda assim, precisava fazer alguma coisa. Não deixar que isso acontecesse novamente. Nem com ela, nem com ninguém. Pensou bastante. Decidiu o que faria. Dessa forma, convocou uma reunião apenas entre as abelhas. Zangões não podiam participar. Logo, todos eles foram colocados para fora. Os que tentaram entrar foram mortos. Desde então, foi decretado que, após o acasalamento com a rainha, os zangões deveriam ser expulsos e mortos.

domingo, 29 de agosto de 2010

A morte do pão francês

Era de manhã. Edmond acordou no meio de outros pães. Estavam todos presos em algum tipo de prisão de papel. Ele conseguia ouvir alguns ruídos vindos de fora. Alguém provavelmente estava do outro lado. Na confusão, uma abertura surgiu, e uma mão apareceu. Os prisioneiros ficaram desesperados. A mão se aproximou e pegou Edmond. Estava assustado. Pediu por ajuda. Mas os pães demonstraram apenas uma expressão de alívio. Entrou em desespero. Foi colocado no chão. Parecia ser de porcelana. A mão saiu e logo voltou com uma serra. Então outra mão apareceu e segurou Edmond contra o solo. Ele olhava para a lâmina assustado. A que estava com a arma se aproximou e começou a serra-lo ao meio. Gritava. A dor era indescritível. Estava quase pela metade. A mão parou de cortá-lo. Ainda estava consciente. Por poucos segundos, Edmond sentiu-se bem. A mão largou a lâmina e passou a arrancar as entranhas dele. Agonizante, ele se perguntava porque aquilo estava acontecendo. Qual era o sentido de toda aquela tortura. Já arrancadas, a mão colocou as entranhas longe de Edmond. Agora enfiava pedaços de carne no lugar. Ele não ligava mais. Não havia solução. As mão juntaram as duas metades e levantaram ele no ar. Olhou para frente. Via uma boca. Cheia de dentes fortes e afiados. Seria facilmente esmagado por eles. Edmond fechou os olhos e se entregou ao seu terrível fim.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Fábula atual

Renato era um jornalista. Ele estava apaixonado pelo colega de trabalho. Não poderia declarar-se ao amigo, pois esse era hétero. Na verdade, ninguém sabia de seu segredo. Aparentemente não havia nada em Renato que trouxesse alguma suspeita sobre sua opção sexual. Pensando nisso, certo dia, ele foi a um bar literalmente “afogar as mágoas”. Bebeu tanto que acabou sendo expulso do botequim. Seguiu, cambaleando, tentando encontrar algum outro boteco de braços abertos. No caminho, deparou-se com um morador de rua em sono profundo. Ao seu lado, uma garrafa. Parecia ser alguma bebida. “Melhor que pagar por uma.”- pensou Renato. Tirou a garrafa do moribundo e saiu. No caminho, tentava abrir a garrafa. Não conseguia. Sentia algum peso nela, como se houvesse algo lá dentro. E com as percepções que qualquer bêbado teria, acreditava de todo coração que só poderia ser algo alcoólico, e estava decidido a descobrir o que era. Como ficava perto, Renato não teve dificuldades para chegar em casa. Com 10 toneladas de cansaço nas costas e uma chave que insistia em pular de suas mãos, ele pacientemente abriu a porta e entrou.
Sentou um pouco. Observou a garrafa. Ainda não podia abri-lá. Reparou que uma rolha a tampava. Foi pegar um saca-rolhas na cozinha. Também não adiantou. E num momento de fúria, Renato deu um berro e jogou a garrafa com tudo no chão da sala. Naquele instante, dos cacos de vidro surgiu um ser de fumaça. Renato, espantado, perguntava-se em voz alta o que seria aquela criatura. Ele não parava de falar. Então a nuvem gritou:

– Cale-se!

Renato obedeceu a ordem.

– Qual é o seu desejo? - perguntou o ser.

– Desejo? - indagou Renato.

– Sim. Me libertas-te de minha prisão. Em troca lhe concederei um desejo.

– Hum...Isso faz de você um gênio, certo?

– Ora! É claro que sou um gênio! O que mais eu seria?

– Mas... só um desejo?

– Olha, se me libertou apenas para me fazer perguntas estúpidas, sugiro que me prenda em outra garrafa e se livre de mim.

– Está bem! Desculpe!

– Agora, novamente, qual seria o seu desejo?

Renato, acreditando que era tudo uma alucinação, resolveu obedecer ao gênio e desejar algo. Mas não fazia idéia do que desejar. Tinha o emprego que sempre sonhou. Ganhava muito bem. O que desejaria? E durante aquela reflexão, lembrou do colega de trabalho. Poderia, porém não desejou que ficassem juntos. Parecia fácil demais. E frio. Precisava de algo que o ajudasse a conquistar o coração de seu amigo, não possuí-lo de uma vez. Teve uma idéia. A qualquer momento poderia acordar daquele provável sonho, entretanto, era melhor que ouvir as ladainhas daquele gênio grosseiro. Renato olhou decidido para a fumaça e exclamou:

– Desejo ser uma mulher!

– Seu desejo é uma ordem. - respondeu o gênio.

A cena se apagou. Com um pequeno esforço, Renato abriu os olhos e se viu deitado no sofá. A cabeça doía. Ele olhou para o piso da sala. Nenhum estilhaço de vidro. “Sonho doido. Não devia ter bebido tanto.”- pensava. Se dirigiu ao banheiro. Por algum motivo as roupas pareciam mais frouxas que usualmente. Não enxergava muito bem. Lavou o rosto. Virou para o espelho e viu o reflexo de uma linda mulher. Ficou sem palavras. Foi a sala novamente se certificar de que não havia algum caco de vidro jogado. Nada. O que teria acontecido? Estaria ainda sonhando? Renato se beliscou. Jogou-se de um lado para o outro. Não resolveu. Continuava com a mesma aparência. Sobrou apenas deixar-se levar por aquela situação. Voltou para o banheiro. Tirou a roupa e deu uma boa olhada no novo físico. “Estranho. Mas nada mal.”- dizia a si mesmo. Sentia-se sujo. Tomou um banho. Enquanto tentava compreender seu novo corpo, refletia em como seguiria com sua vida a partir dali. Apesar de complicado, aquela seria a chance perfeita para conquistar o coração do amado. Estava resolvido. Iria ganhar o coração dele. Nem que fosse como Renata.
Comprou roupas novas. Arrumou outra identidade e novos documentos. Difícil se acostumar. Muitos saltos quebrados durante o percurso. Com empenho, conseguiu o emprego como aquela pessoa. Agora precisava se aproximar do homem. Conversavam pouco. E os papos que não passavam de profissionais ficaram mais íntimos. Saíam juntos. E quando surgiu a oportunidade, Renata se declarou. A reação do indivíduo não poderia ser melhor. Ele confessou que a amava também. Naquela mesma noite, foram ao apartamento dela e selaram seu amor. Ela levantou de madrugada. O amado dormia. Tinha o coração dele. Deveria estar feliz. Entretanto, havia algo errado. Não parecia ter feito o correto. Pensativa, levantou vagarosamente da cama, vestiu uma camisola e saiu. Teria de ir a um lugar. Resolver um assunto com um certo alguém. Andava tentando recordar onde aconteceu. Alguns passos dados e lá estava ele. O mesmo mendigo, com a mesma garrafa do lado. Não hesitou. Tomou-a e correu para um beco vazio. Rapidamente, lançou o recipiente na calçada. O g~enio apareceu:

– Mas você de novo?! - resmungou ele.

– Eu faria muitas perguntas neste instante, porém não pretendo tomar seu tempo. - disse ela.

– Quer outro desejo?

– Isso mesmo.

– Sendo assim, diga.

Renata respirou fundo e pediu:

– Desejo voltar ao que era!

– Não compreendo. Não alcançou o que queria? Por que você voltaria agora?

Ela se perguntava o que o gênio quis dizer com “alcançou o que queria”. Respondeu:

– Porque prefiro estar longe dele sendo eu mesmo, do que perto como outra pessoa.
– Dessa forma, mais uma vez, seu desejo é uma ordem. - falou ele.

Outro apagão. Renato acordou no beco. Estava com seu velho corpo. Voltou para casa, formulando uma explicação ao amante no caminho.