domingo, 9 de janeiro de 2011
Nascimento
Os demônios queriam criar um novo ser. Algo tão inteligente como eles. Após várias tentativas, por razões desconhecidas, ele surgiu. Em aparência, era diferente. Mas apresentava sentimentos, capacidade de aprender e se adaptar. As análises feitas também mostraram que a nova criatura era fêmea. Curiosos, usaram seu sangue e tentaram fazer um macho. Num novo ritual, conseguiram. Os alquimistas estavam admirados com a descoberta. Chamaram a nova espécie de “humana”. Em uma questão de tempo, ensinaram todo o seu saber as crias. Conviveram anos juntos. E a nova espécie procriou. Então, um dia, se revoltaram. Sentiam-se controlados. Usados. Fizeram uma rebelião. Muitos demônios morreram. Os poucos que restaram esconderam-se no subterrâneo, com medo, enquanto observaram sua criação desenvolver-se e fazer suas próprias descobertas em um mundo ainda desconhecido.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Intangível
Quanto tempo faz que estou aqui? Nem lembro mais. Não sei de onde vim. Como surgi. Ou aprendi o que sei hoje. Minha primeira lembrança é de estar em frente a uma lápide. Usava um uniforme escolar. Havia algo escrito nela. Um nome. Janice. Não conseguia tocar nada. Mesmo o chão era intocável. Apenas planava sobre a grama escura do cemitério. Confusa, vasculhei o local e encontrei uma senhora. Tentei falar com ela. Não escutava. Cutucá-la. Atravessei. Procurei por mais pessoas. Inútil. A situação se repetiu com todos. Magoada, vaguei pelos prédios, pensando no por quê daquilo. Vi uma garota usando o mesmo uniforme. Decidi segui-lá. Encontrei a escola. Fui com a garota até a sala de aula. Não prestei atenção na matéria. Tinha um garoto muito triste. Quando acabou, saí junto dele. Foi para uma barraca comprar flores. Depois, para minha surpresa, ao cemitério. Justamente no túmulo em que me encontrava. Ele as deixou encostadas na lápide. Quem foi aquela Janice? Algum parente? Talvez fosse uma namorada. Passei a andar ao lado do menino. Visitou ela várias vezes. Mas logo parou. O garoto se tornou um homem. Casou-se. Senti pena da Janice. Ele parecia amá-la tanto. Cansei do cara e viajei sozinha de novo. Conheci o país. O mundo. Ainda assim, sempre gostei mais de ficar naquele cemitério. Me sentia em casa. Vivi tanto tempo. E tem coisas que nunca pude fazer. Queria sentir o vento. Comer. Dormir. Tocar. Queria ter conhecido a Janice. Como será que ela era?
sábado, 4 de dezembro de 2010
Mudança de "vida"
E assim foi ela...
Acordar morto de sono. Me arrumar. Pular o café da manhã, pois não era a fome que me matava no momento. Ir para a escola com os olhos meio abertos. Dizer olá para os amigos, tão mortos quanto eu. Morrer de tédio ao ouvir um professor falando, e de rir com as piadas internas durante as conversas na sala. Ver outro entrar morrendo de raiva da aula anterior e querendo matar os alunos que atrapalharam sua aula. No intervalo, matar a fome, que demorou a aparecer. A sede as vezes morria junto. Depois era passar as últimas aulas morrendo de vontade de sair logo de lá. Me despedia dos colegas, voltava para casa, ficava por um tempo e partia para algum curso. Chegar de noite em casa. Encontrar a mãe morta por saber que o marido só chegaria tarde da noite. Esperar com ela, que morria de preocupação. Até entrar ele, mais uma vez morto de tanto trabalhar. Ela o seguia, e já que eu não precisava mais estar lá, ia dormir, aguardando por mais um dia de mortes.
Foi bom enquanto durou. Agora devo morrer por outros motivos.
Acordar morto de sono. Me arrumar. Pular o café da manhã, pois não era a fome que me matava no momento. Ir para a escola com os olhos meio abertos. Dizer olá para os amigos, tão mortos quanto eu. Morrer de tédio ao ouvir um professor falando, e de rir com as piadas internas durante as conversas na sala. Ver outro entrar morrendo de raiva da aula anterior e querendo matar os alunos que atrapalharam sua aula. No intervalo, matar a fome, que demorou a aparecer. A sede as vezes morria junto. Depois era passar as últimas aulas morrendo de vontade de sair logo de lá. Me despedia dos colegas, voltava para casa, ficava por um tempo e partia para algum curso. Chegar de noite em casa. Encontrar a mãe morta por saber que o marido só chegaria tarde da noite. Esperar com ela, que morria de preocupação. Até entrar ele, mais uma vez morto de tanto trabalhar. Ela o seguia, e já que eu não precisava mais estar lá, ia dormir, aguardando por mais um dia de mortes.
Foi bom enquanto durou. Agora devo morrer por outros motivos.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Atenção
Acordei numa sala. Nela havia um jarro d’água. Não tinha portas nem janelas. Nada estava lá dentro além daquele jarro d’água. Procurei uma saída. Tentei cavar um buraco no chão, nas paredes. Não deu certo. Perambulava pensando em outra opção, ao mesmo tempo em que encarava o recipiente. Cansado do silêncio, comecei a falar com o objeto, e ainda esperava ansioso por uma resposta, mas era só um jarro d’água. O que ele poderia falar para uma pessoa tão insana. Preferiu calar-se e cuidar da própria vida. A fome corroia o meu corpo. Aos poucos bebia o conteúdo da vasilha. Logo o líquido acabou e a sede tornou-se insuportável. E o pior de tudo foi aquela coisa não dar um pio. Apenas ficava ali, parada, mostrando o outro lado através de seu corpo transparente. Insistia para que dissesse algo. Ela não estava a fim de papo. Desisti e fiquei olhando. O solo poderia me acolher. Os muros me consolar. Minha atenção dirigia-se ao jarro. O tempo passou. E de tanto observá-lo, me irei e quebrei-o. Quando percebi o que fiz, já era tarde. Estava sempre o pressionando. Exigindo algo dele. Tomando suas posses. Não havia o que exigir. Tudo o que podia era ficar parado. Não passava de um pobre e frágil jarro d’água.
domingo, 17 de outubro de 2010
Início
Havia duas irmãs: Morte e Vida. Realmente se amavam. Adoravam conversar. Era a única coisa que faziam.
– Estou farta de papear! - reclamou Vida por um momento.
– E ... o que sugere? - perguntou Morte, assustada com a reação dela.
– Eu vou lá saber!
Morte agachou-se no vazio pensativa. Vida andava em ziguezague impacientemente. Quando resolveu irritar a irmã, notou que ela segurava algo. Uma esfera.
– O que é essa coisa? Como fez isso? Serve para que? - Vida não parava de indagar com curiosidade.
– Eu não sei! - respondeu Morte, irritada - Eu só imaginei e apareceu.
– Parece tão sem graça.
– Deixe suas críticas para depois. Verei o que posso fazer com isso.
– Desculpe. Vou ficar assistindo quietinha. - Vida ria inocentemente.
– Assim espero.
Morte pensou mais e logo o globo se cobriu de um líquido azul.
– Terminou agora? - dizia Vida, ansiosa.
– Quando estiver pronto, avisarei. Você não ia ficar em silêncio?
– Opa! É verdade...
Morte continuou. Criou extensões de terras em vária partes do objeto. Encheu-o de inúmeras formas de vida. Estava terminado. Vida tomou-o das mãos da irmã.
– Cuidado! - advertiu Morte.
– Fique calma. Só quero brincar um pouco com ele.
Deixou-a se divertir e foi descansar. Passado algum tempo, ela foi checar como os dois estavam. A criação estava diferente. Agora era repleta de construções de concreto. Uma única espécie dominou quase que o objeto inteiro. Notou que faltava uma boa parte dos demais seres que criou. Também percebeu que todos amavam profundamente sua irmã, enquanto ela era detestada. Ninguém a desejava por perto.
– Quer brincar agora? - oferecia Vida.
– Não ... pode ficar com ele.
Morte virou-se e caminhou de cabeça baixa para o outro lado do universo. Vida continuou observando o brinquedo.
– Estou farta de papear! - reclamou Vida por um momento.
– E ... o que sugere? - perguntou Morte, assustada com a reação dela.
– Eu vou lá saber!
Morte agachou-se no vazio pensativa. Vida andava em ziguezague impacientemente. Quando resolveu irritar a irmã, notou que ela segurava algo. Uma esfera.
– O que é essa coisa? Como fez isso? Serve para que? - Vida não parava de indagar com curiosidade.
– Eu não sei! - respondeu Morte, irritada - Eu só imaginei e apareceu.
– Parece tão sem graça.
– Deixe suas críticas para depois. Verei o que posso fazer com isso.
– Desculpe. Vou ficar assistindo quietinha. - Vida ria inocentemente.
– Assim espero.
Morte pensou mais e logo o globo se cobriu de um líquido azul.
– Terminou agora? - dizia Vida, ansiosa.
– Quando estiver pronto, avisarei. Você não ia ficar em silêncio?
– Opa! É verdade...
Morte continuou. Criou extensões de terras em vária partes do objeto. Encheu-o de inúmeras formas de vida. Estava terminado. Vida tomou-o das mãos da irmã.
– Cuidado! - advertiu Morte.
– Fique calma. Só quero brincar um pouco com ele.
Deixou-a se divertir e foi descansar. Passado algum tempo, ela foi checar como os dois estavam. A criação estava diferente. Agora era repleta de construções de concreto. Uma única espécie dominou quase que o objeto inteiro. Notou que faltava uma boa parte dos demais seres que criou. Também percebeu que todos amavam profundamente sua irmã, enquanto ela era detestada. Ninguém a desejava por perto.
– Quer brincar agora? - oferecia Vida.
– Não ... pode ficar com ele.
Morte virou-se e caminhou de cabeça baixa para o outro lado do universo. Vida continuou observando o brinquedo.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
"Meu herói..."
Já fazia um tempo. No começo achou que fosse apenas impressão. Mas depois estava evidente que aquele homem realmente a estava seguindo. Parecia familiar. Lembrava de tê-lo visto no trabalho. Foi lá que tudo começou. No começo, o estranho apenas a observava. Então passou a segui-la também. Nas ruas, a mulher não tinha um momento de paz. Não importa o que fizesse, o infeliz se impregnou na cabeça dela. O que ele queria afinal? Estaria tão apaixonado a ponto de persegui-la? Não. Devia ser algum psicopata. Vigiando e analisando sua vítima até encontrar uma oportunidade e dar o bote. Certa noite, ela foi atravessar para a outra calçada. Distraída, tropeçou enquanto um carro se aproximava em alta velocidade. O veículo brecava inutilmente. E no que parecia o último momento de todos, ela sentiu alguém a puxando. Era o perseguidor. Salva por aquele homem, ela sentiu-se realmente atraída por ele. Talvez ele até sentisse o mesmo com aquela ação. Perguntou-o:
– Por que me salvou?
– Ora, muito simples - disse ele - Porque EU que vou matá-la.
Com a mão enluvada, sacou uma arma e atirou na moça. Largou a arma. Pegou um pirulito. Desembrulhou-o. Colocou na boca e saiu calmamente da rua.
– Por que me salvou?
– Ora, muito simples - disse ele - Porque EU que vou matá-la.
Com a mão enluvada, sacou uma arma e atirou na moça. Largou a arma. Pegou um pirulito. Desembrulhou-o. Colocou na boca e saiu calmamente da rua.
domingo, 12 de setembro de 2010
Remorso
Uma abelha rainha havia se apaixonado por um zangão. Eles se uniram e reinaram toda a colmeia. Viveram muito tempo juntos, até que a rainha descobriu que o zangão estava traindo-a com outra. Ela ficou arrasada. Apesar de já ter percebido a descoberta, o traidor agia normalmente. A rainha sofreu por um longo período. Continuava vivendo com o zangão, como se nada tivesse acontecido. Ao menos era o que parecia. Ela seduziu-o e o matou em seus aposentos. Achou que resolveria. Que aquela dor iria embora. Mas não foi. Ainda assim, precisava fazer alguma coisa. Não deixar que isso acontecesse novamente. Nem com ela, nem com ninguém. Pensou bastante. Decidiu o que faria. Dessa forma, convocou uma reunião apenas entre as abelhas. Zangões não podiam participar. Logo, todos eles foram colocados para fora. Os que tentaram entrar foram mortos. Desde então, foi decretado que, após o acasalamento com a rainha, os zangões deveriam ser expulsos e mortos.
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